• Juan Page

O susto de Lilu.

Lilu poderia ser considerada uma senhora de cerca de 50 anos. A cadela boxer de Arlindo contava com mais de 7 anos de idade. Sua pelagem era toda branca e em volta do olho esquerdo possuía pelos pretos, como um tapa-olho natural, dando-lhe um charme pirata que tanta atenção atraía quando a conheciam em qualquer lugar. Fato que contrastava fortemente com sua doçura e ar brincalhão. De vez em quando, hoje em dia, fazia concessões ao sagaz menino de 10 anos, pulando e correndo com ele, mesmo que seus cotovelos e joelhos reclamassem depois e passasse o resto do dia quieta e exausta, por vezes tendo até que se esconder de Arlindo. Já não era mais a mesma.

Naquela tarde ensolarada, porém de temperatura agradável, corriam pelo quintal da parte de trás da casa, latindo e gritando, como nos velhos tempos. Lilu sentia uma alegria verdadeira naqueles momentos, mesmo que depois viesse o arrependimento. Havia um buraco no muro daquele lado. Encontrava-se no lado direito, quase a um metro do final do muro. Era por onde Lilu e Arlindo passavam para a casa de Seu Gomes. Casa antiga, construída em 1896, encima da porta da frente estava gravado o ano em alto-relevo de cimento, como hoje não se faz mais segundo Seu Gomes, e que agora estava abandonada. Arlindo não entendeu muito bem quando ouviu os pais comentando sobre uma briga entre herdeiros. Nunca vira nenhum deles na casa.

Lilu passou para o outro lado pelo buraco como antigamente. Arlindo correu atrás. Há muito não faziam isso. Do outro lado, por um momento, menino e cadela ficaram parados olhando para tudo. Uma tristeza estranha se abateu sobre eles. Seu Gomes era um velho solitário. Ninguém da família vinha visitá-lo, não possuía filhos, entretanto, a casa estava sempre cheia. A garagem fora transformada em oficina. Daquela parte do pátio não a viam. Alguns vizinhos comentavam das excentricidades do velho Gomes: rico e trabalhava como mecânico! Arlindo não entendia muito bem o espanto dos adultos. Ele achava extremamente lógico Seu Gomes trabalhar como mecânico, ainda mais se fosse rico mesmo e não precisasse de dinheiro: o amigo adorava trabalhar com os carros. Eram muito amigos. Seu Gomes adorava as visitas de Lilu e Arlindo. Tinha sempre um biscoito canino ou uma cenoura, que Lilu devorava sempre rapidamente como se lhe fossem tomar da boca. Para Arlindo sempre havia algo também: um doce, uma bala, um biscoito, um chocolate. Para que fique claro para o mundo: chocolate não é doce, é chocolate. Essa era uma diferença fundamental para Seu Gomes, com a qual Arlindo concordava. Ficavam na oficina conversando por horas. Muitas vezes, Arlindo ficava apenas distraído olhando Seu Gomes por baixo dos carros, andando de um lado para outro, explicando o que estava fazendo. Virgílio, o ajudante de Seu Gomes, achava graça. Às vezes resmungava: “Seu Gomes, e Arlindo vai lá saber o que é isso?”, balançando a cabeça negativamente com um sorriso. Seu Gomes não se importava e nem lhe respondia. Continuava a explicação. Arlindo entendia boa parte do que ouvia. Prestava atenção em tudo. Conversavam também sobre assuntos dos mais variados. Seu Gomes contava sobre sua vida, os países que visitou pelo trabalho, do qual já se aposentara. Foram muitos. Virgílio era um jovem e bom rapaz, nas palavras de Seu Gomes, mas não entendia nada de educação. Arlindo conhecia, por causa disso, o nome de vários países, suas capitais e o idioma que se falava neles, além dos componentes de um carro e como ele funcionava. Deixava seus amigos na escola impressionados com tamanha sabedoria.

O que Arlindo mais gostava naquela garagem, era da máquina de solda elétrica. Seu Gomes parecia um cientista daqueles filmes que seu pai adorava quando a usava. Parecia um ser de outro planeta. A máscara de proteção parecia um capacete espacial. As luvas grossas e o avental de couro completavam a ilusão, até porque limitavam seus movimentos, tornando-os mais lentos. Quando estava sendo usada, com todas aquelas fagulhas, luzes e ruído, pareciam a Arlindo que Seu Gomes estava consertando uma nave espacial.

Depois de um tempo contemplando saudosamente aquele lado da casa de Seu Gomes, Lilu começou a correr novamente. Não entendia porque o amigo que lhe dava cenouras tão saborosas não estava mais ali, mas como gostava de correr por aquele gramado! Lilu parou de repente. Latiu muito a um canto. Apontava para algo. Olhava para o lugar e para Arlindo. Avisava-o: “tem algo aqui”. Arlindo foi ver o que era tão curioso para ela. Uma espécie de lagarto estranho estava observando-os imóvel. Arlindo nunca tinha visto nenhum daquele tipo pelo bairro. Como morava na periferia de uma grande cidade, passava uma infância em contato com a natureza. Lilu estava desconfiada. Danada como ela só, estava muito curiosa. Aproximava-se cheirando o lagarto e, ao menor sinal de movimento, saltava para trás. Arlindo não se atreveu a chegar perto. O lagarto era grande. O maior que já tinha visto. Lilu latiu mais forte e rosnou. Foi então que o lagarto atacou Lilu e fugiu em ziguezague. Arlindo fez um gesto de defesa, colocando os braços e pernas à frente de seu rosto e corpo, virando um pouco de lado. Não viu onde Lilu havia sido atingida. Só a viu saltar para o lado.

Arlindo correu até sua cadela. Ela estava imóvel. Não sentiu sua respiração. Encostou seu ouvido no corpo de Lilu e não ouviu seu coração. Ele não sabia onde ficava. Nos filmes as pessoas encostavam o ouvido no peito para ouvir o coração. Acreditou que ao fazer a mesma coisa o ouviria. Não ouviu. Se eles escutam o coração batendo em uma pessoa, como não iria escutar em um cachorro? Levantou-se rapidamente e começou a se mover nervosamente de um lado para outro. Lágrimas desciam de seu rosto. Ele não sabia o que fazer. Sua melhor amiga estava ferida! O que ele poderia fazer? Não havia ninguém em sua casa. A mãe foi ao supermercado. O pai estava viajando a trabalho. Seu irmão mais velho estava na escola jogando futebol, era titular do time de futebol de salão da escola e treinava todo sábado pela manhã. Sua irmã dormira na casa de uma amiga. Ele estava só. Completamente só.

O quê um adulto faria? Respirou fundo. Foi na primeira coisa em que pensou quando percebeu que ele teria que achar uma solução. Não podia deixar Lilu morrer. Se ela ainda estivesse viva! Respirou fundo mais uma vez. Soltou o ar de seus pulmões fortemente, como seu pai lhe ensinara a fazer quando estava nervoso. Mais uma vez! Acalmou-se um pouco. Começou a colocar a cabeça para funcionar. Lembrou de um desenho animado que vira em que um menino ressuscitou seu cachorro. Lembrou também que naquelas séries da TV de médicos, que sua mãe adorava, viviam ressuscitando pessoas. Ele não era médico e muito menos um desenho animado. Lembrou-se de mais uma coisa e que agora poderia ajudar. Seu Gomes vivia preocupado com Lilu e Arlindo quando ele estava usando a solda elétrica. Dizia que o choque dela podia matar e que por isso usava toda aquela proteção. Ora, pensou Arlindo, se um choque mata uma pessoa viva, está explicado por que os médicos dão choque em alguém que está morto! É o efeito contrário! Mas para isso, a pessoa, ou bicho no caso, devia estar morta há pouco tempo. Nos filmes nem sempre eles conseguiam ressuscitar os doentes, mesmo usando aqueles ferros de passar roupa estranhos e que dão choque... Será que a solda elétrica ainda funciona?

Arlindo correu até a porta da garagem. Estava trancada. Forçou de todas as maneiras e não conseguiu abri-la. Devia ser rápido. Como entrar? Respirou fundo e soprou forte. Uma vez viu Seu Gomes entrar na casa por uma porta lateral, escondida, que usava quando esquecia a chave. De verdade, de verdade, nem parecia uma porta. Por dentro da casa poderia acessar a garagem e abri-la. Era assim que Seu Gomes abria a garagem todo dia: de dentro da casa. Correu até a porta lateral que ficava junto do lado esquerdo da casa, num corredor estreito. A chave ficava escondida em um tijolo falso perto do chão. Cutucou alguns rapidamente e achou o que procurava. Abriu a porta e foi direto para a garagem. Não havia porta interna impedindo a passagem. Abriu a porta da garagem e foi até Lilu.

Lilu pesava 25 quilos, segundo a veterinária. Arlindo não conseguiu levantá-la. Arrastá-la podia machucá-la. Parou e pensou. Respirou fundo. Soprou forte. Precisava ser rápido, mas aqueles obstáculos o impediam. Pensou num filme que viu com seu pai, onde alguém arrastava um corpo encima de um tapete. Voltou para a garagem. Procurou um tapete e não encontrou. Viu o avental de couro de Seu Gomes pendurado no fundo da garagem. Apanhou-o e foi até Lilu. Estendeu o avental ao lado da cadela e rolou seu corpo com dificuldade por cima do avental. A distância de onde a cadela estava não era muito longe. Começou a puxá-la. Fazia muito esforço e suava. Demorou mais de dez minutos até chegar à máquina de solda elétrica.

Deixou Lilu deitada no chão em frente à máquina de solda. Era como um bastão com um cabo, ligado a uma espécie de motor. Devia ligar a força que o alimentava. Como era mesmo que Seu Gomes fazia? Fechou os olhos. Procurava lembrar-se de Seu Gomes quando trabalhava com a máquina de solda. Viu mentalmente Seu Gomes acionar uma chave, que não se parecia em nada com uma chave, porém ele a chamava assim. Abriu os olhos e viu na parte de trás da oficina a tal. Levantou o cabo de uma espécie de manivela que era a chave, rezando para que não estivesse quebrada depois de tanto tempo. Ouviu um zumbido. Estava funcionando! Foi até o bastão, que era a própria máquina de solda. Olhou para Lilu mais uma vez e esperou. Tomava coragem olhando para sua melhor amiga. Apertou um botão e sentiu a força elétrica. Desligou o botão. Respirou fundo e soltou o ar. Ligou o botão de novo e colocou no peito de Lilu. Sentiu um cheiro de cabelo queimado.

Lilu levantou num pulo. As pernas dela estavam bambas, olhava assustada para seu companheiro de aventuras. Respirava com dificuldade, entretanto, estava viva! Arlindo chorava de alegria. Abraçou Lilu fortemente. Foi com ela até o tanque de água que havia no fundo da garagem. Ligou a torneira, colocou as mãos em concha e encheu com o líquido, se abaixou e colocou-as em frente à boca de Lilu, que sorveu tudo com duas linguadas. Arlindo colocou mais e ela bebeu. Estava assustada.

Arlindo e Lilu estavam deitados abraçados dormindo no sofá da sala. Ao voltarem da veterinária com a mãe, a tensão da aventura os derrubara. Arlindo sentia-se um herói. Apesar de ter utilizado a máquina de solda de maneira errada, seu pai estava radiante de orgulho. Ele percebeu que Arlindo havia utilizado os parcos conhecimentos que tinha para tentar salvar a vida de sua cadela companheira. Esse espírito de iniciativa seria fundamental em sua vida. Claro que poderia ter dado tudo errado e o correto mesmo era ele ter chamado um adulto vizinho qualquer, como o pai lhe explicara. A veterinária não sabia o que havia provocado o desmaio da cadela. Não havia sinais de veneno em Lilu. A mordida do lagarto quase nem se via. Um susto grande com o ataque repentino do lagarto talvez. A veterinária riu da história da máquina de solda elétrica. O menino poderia ter matado a cadela se houvesse usado-a da forma correta! Contudo, apenas a pequena queimadura no pelo de Lilu, no peito próximo à pata dianteira direita, que talvez nem fique marcada com uma cicatriz, indicava algo de mal que havia acontecido à cadela. Não podia negar, no entanto, que a medida encontrada por Arlindo fora inventiva.

FIM

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