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O QUARTO DO APARTAMENTO DO SÉTIMO ANDAR

— Me dá três cartas...

— Eu quero duas...

— Eu quero três também...

— Eu que-ro... Uma só, uma...

Os olhares estavam tensos. O cigarro aceso pendia lateralmente de minha boca. Abria as cartas lentamente, os olhos semicerrados sob efeito da fumaça e da esperança da carta certa.

— Quem aposta?

— Sempre é quem pergunta! Eu dei as cartas, então você aposta.

— Tá, porra... Eu aposto dez!

— Eu pago!

— Eu saio...

— Eu aposto seus dez... E... Mais cinco...

Ele me olhava intrigado. Troquei apenas uma carta então poderia estar com dois pares ou um full hand. Poderia ter tentado uma sequência ou um flash ou um street flash. Estaria eu blefando? Ele trocara três cartas, então era óbvio que todos achavam que tinha um par pelo menos.

— Pago.

— Também pago! Você não me engana...

Eu tinha fama de blefador. Era verdade. Nem sempre tinha êxito com essa tática. Aliás, eu perdia mais que ganhava. Entretanto, aquela mão tinha que ser minha. Viera com um four de valete de mão. Troquei uma carta apenas para despistar. Como estávamos jogando pôquer clássico, do oito ao ás, e pela quantidade de jogadores, sabia que ninguém tinha uma sequência ou um street flash. Alguém poderia ter um four também ou um flash que me ganharia... Era possível. Porém, pelas apostas não. Eles eram cuidadosos. Somente apostavam alto quando tinham algo substancial nas mãos. Daquele grupo eu era o descuidado. Estávamos em quatro apenas naquela tarde. Os outros, tão afoitos e impetuosos como eu, não estavam jogando naquele dia. Abaixei as cartas com um sorriso triunfal. Os dois se encolheram e me xingaram.

— Filho da puta!

— Ganhei sessenta e cinco centavos... Hahahahaha Hoje eu estou arrebentando...

Os sorrisos estamparam-se nos rostos adolescentes. Há alguns meses aquela era nossa mania: pôquer. Já havíamos passado por várias: War, Banco imobiliário, Black Jack, Buraco, mas o pôquer estava durando mais. O futebol ou o vôlei diários na quadra do prédio, já não bastavam para nossa inquietação. As tardes eram dedicadas a eles. Contudo, o final do dia e início da noite até a hora do jantar, não. Éramos projetos de homens, apostando, fumando, conversando sobre mulheres, as famosas e as meninas de nosso grupo, para nós mulheres em toda sua exuberância. Sexo, sexo, sexo. Os hormônios manifestando-se nas palavras. Todos inexperientes. Final dos anos 1970, início dos 1980. Naquela época, poucas meninas da nossa idade praticavam completamente o jogo do amor. Acredito que hoje também, fala-se mais sobre sexo do que se pratica, de modo geral. Sempre foi assim.

Naquela semana, chovera todos os dias e nós nos confinamos durante as tardes inteiras jogando nossos centavos economizados de trocos e mesadas. Voltávamos da escola, fingíamos que estudávamos até quatro da tarde e íamos nos divertir. Não havia internet. Computadores pessoais? Raros no Brasil. Videogame? Apenas rumores sobre um tal de Atari . Íamos ao fliperama jogar nas máquinas de Pinball, Space Invaders, Pac Man e outros menos icônicos. Somente os clássicos. O Brasil era um país fechado. Vivíamos o final da ditadura. Não sabíamos disso. Como nascemos sob ela, para nós, ainda despolitizados, aquela era uma condição natural.

Nesses meus anos amarelos, comunguei das mesmas descobertas e decepções desses anos de amadurecimento, com um grupo grande de outros adolescentes, que, como eu, possuíam o que todo adolescente tem de sobra: pouco juízo, muita curiosidade. Eu morava no prédio ao lado. Tínhamos todos entre quatorze e dezessete anos. O grupo era constituído de oito garotos e cinco garotas. Na hora dos jogos na quadra, aparecia mais gente: irmãos mais novos, garotos de prédios vizinhos da mesma rua ou da outra rua cujo fundo do prédio era colado a este. Gritávamos os nomes uns dos outros. Se formos contar todos, dos que não faziam parte do pequeno grupo, éramos uns trinta adolescentes. Nunca estávamos juntos todos. Após o jantar ainda íamos até a rua mais uma vez. Ficávamos jogando conversa fora e falando besteiras, e por volta das dez ou onze da noite voltávamos para casa. No dia seguinte, acordávamos cedo e íamos às escolas. Ninguém estudava na mesma. Voltávamos, almoçávamos e o ciclo reiniciava.

— Cacete, tô com uma dor nas costas... Vamos dar uma paradinha?

— Vamos porque quero mijar...

— Tô com sede, me arruma uma aguinha...

— Ah, não fode, vai lá na cozinha e pega, mamãe não tá e você já é de casa. Ou vai querer que eu te sirva, bonequinha?

Todos riram. Eu levantei e fui até a janela do quarto fumar outro cigarro. A chuva tinha dado uma trégua e podia ficar ali vendo a paisagem. A noite chegava e logo deveríamos todos ir para nossas casas para a rotina familiar. Não haveria as conversas na rua hoje, como não havia acontecido no resto da semana. Sentíamos falta.

Da janela daquele quarto podia ver meu apartamento. Eles moravam no sétimo andar e eu no quarto andar do prédio vizinho. No quinto andar, logo acima do meu apartamento, morava uma família que abrigava uma hóspede. A hóspede tinha por volta de 20 anos e era parente. Um pouco mais velha do que nós, por isso sonho de consumo dos pobres adolescentes que a viam entrar e sair do prédio. Uma loura sensacional que nos deixava loucos! Seu corpo escultural, mesmo, não quimeras adolescentes. Talvez para os padrões modernos, não tão escultural assim, visto que não era musculoso, “sarado”, porém de formas irretocáveis. Nossos delírios pululavam nossos pensamentos banheirísticos, pois meu prédio possuía uma piscina e nos finais de semana ao voltar da praia, ela banhava-se com um biquíni minúsculo. O que era lógico e o biquíni totalmente apropriado para a época, porém na mente de adolescentes com pensamentos libidinosos, um marco que pontuava nossas conversas insanas sobre mulheres, sexo e vontades. Crueldade hormonal com a qual nós homens somos obrigados a conviver. As mulheres não sabem o que é isso, pois nosso desejo é visível e incômodo, a grande maioria dos homens dessa idade tem vergonha de sua ereção imprópria. Imprópria porque totalmente involuntária e sem motivo real nenhum. Duvida? Pergunte a qualquer homem: nessa idade, ver uma marca de biquíni branca de um seio, do qual não se vê mais nada, é motivo de ereção.

Continuava fumando um cigarro na janela sozinho. A noite já havia caído. As luzes pipocavam pelas janelas das salas, quartos, cozinhas. No edifício logo em frente que era onde eu morava, no quarto logo acima do meu, uma luz se acendeu. A loura entrou envolvida em duas toalhas: uma cobria seus cabelos a outra seu corpo. Logo prestei atenção com esperanças de um show particular. Ela foi até a janela e abaixou a persiana. Maldizia o universo pela falta de sorte e por seus cuidados. Minhas preces, no entanto, foram atendidas, pois em ato contínuo, ela mexeu as cordas de posicionamento das lâminas da persiana, achando que estava se escondendo do mundo exterior. Ela assim o fez, escondendo-se, no entanto, apenas daqueles que estavam em janelas posicionadas diretamente em frente ou um andar acima. Dois andares acima, coincidentemente onde eu estava, uma visão maravilhosa e total de seu quarto surgiu diante de olhos incrédulos. Quando ela tirou a toalha que cobria seu corpo e ficou totalmente nua, eu pedi instintivamente para que desligassem a luz do quarto: pensei num átimo cerebral de sátiro depravado que se eu a via, ela também poderia me ver. Com a luz apagada e a persiana abaixada, poderíamos observar em secreta escuridão com calma, sem sermos descobertos.

Os outros estranharam minha atitude, pois abaixei a persiana imediatamente enquanto apagavam as luzes. Chamei todos para a janela, pois abri uma fresta para olhar deliciadamente aquele espetáculo proporcionado por um descuido cuidadoso: se ela tivesse virado a persiana ao contrário do que fez, nós não veríamos nada. Todos ficaram extremamente excitados, rindo nervosamente. Era um sonho coletivo sendo realizado. Ela era tudo o que adivinhávamos por entre seu biquíni e muito mais, porque nua, e descuidada, agora que se achava protegida. Sentada na cama, abriu as pernas para raspar com cera suas partes íntimas. Não os bigodinhos que se usam hoje, mas um triângulo digno das Bermudas, onde nossos sonhos se perdiam e desapareciam. O suficiente para os pelos não pularem para fora do biquíni. Olhava as unhas dos pés. Passeava pelo quarto, secando o cabelo com movimentos que faziam seus seios e nossos corpos tremerem quase em sintonia. Seios firmes, de tamanho médio, em formato de pera. Seios têm formatos variados: pera, maçã, banana, uva, cereja, bola e por aí vai, com variações de nomenclatura e confusões entre um formato e outro. Essas formas se encaixam em todo tipo de tamanho.

Por cerca de meia hora vislumbramos sua intimidade nua. Em dado momento ela se vestiu, abriu as persianas e saiu do quarto. Ficamos em silêncio durante alguns segundos e explodimos em incredulidade. Fizemos um pacto: no dia seguinte, à mesma hora, estaríamos ali. Não diríamos a ninguém o que vimos. Seria nosso segredo.

Foi assim por três dias. No quarto dia, desconfiado porque nós subíamos sempre no mesmo horário misteriosamente, um dos amigos não nos deixou em paz. Seguia-nos curioso e nem as indiretas que enviamos para que nos deixasse surtiram efeito. Ele acabou entrando no círculo restrito.

Chegou o fim de semana e o espetáculo não se repetiu. Aquele era um ritual que dependia de seus horários de segunda à sexta. Nossos horários também mudavam nos fins de semana, então esperamos ansiosamente pela segunda-feira. Acontece que a excitação de vermos aquela mulher em especial nua, da maneira como se expunha, durante quatro dias consecutivos, foi demais para nossos corações e bocas adolescentes. No fim de semana seguinte, um contou apenas para outro em segredo e prometeu chamá-lo discretamente para a retomada do programa de vigia na semana seguinte. Apenas eu não o fizera. Não porque respeitara o combinado, apenas porque naquele fim de semana específico, uma programação familiar obrigatória me privaria da companhia de meus amigos. Passara o fim de semana fora do bairro.

Em plena segunda-feira havia nove garotos indo para o quarto do apartamento do sétimo andar. Eu discuti com os outros alegando quebra de promessa e desonra, mais para marcar diferença que outra coisa. Como quase todos haviam cometido indiscrição, o caso foi resolvido com um argumento definitivo: a janela é suficiente para todos. Por mais uma semana nosso ponto de observação era frequentado religiosamente. E crescia em número de frequentadores. Nossos cochichos excitados e conspiradores nos denunciavam. As meninas estavam morrendo de curiosidade para saber o que fazíamos durante aquele tempo no quarto do apartamento do sétimo andar. Para elas o silêncio era unânime. A cumplicidade masculina tão cantada servira sempre a propósitos escusos. A mãe de meu amigo estranhava. Colocávamos ACDC, Led Zeppelin ou Deep Purple na vitrola, com a desculpa de ouvir um “som”. Sim, naquele tempo ainda ouvíamos discos, apelido dos LPs (Long Plays), nas vitrolas. Laser estava restrito aos raios pulverizadores das armas de ficção científica. Ela não percebeu a escuridão. Como agora não cabíamos todos mais na janela, revezávamo-nos. O que causava sérias querelas e arraigados egoísmos.

Mais um fim de semana passou. A espera nos enlouquecia. Quando sós, nosso assunto era apenas esse: “que peitos que ela tem, e a bunda?, eu acho que estou apaixonado, ela é muito gostosa, e a boca?” Os delírios cresciam. Na terceira semana, percebemos irritação na dona da casa. Um ou outro apenas se incomodou com isso. O resto era um bando de tarados adolescentes ávidos pela fresta da janela do quarto do apartamento do sétimo andar. Aquelas mentes pervertidas, abarrotadas de hormônios, apenas vislumbravam a nudez perfeita e real da musa loura e nada mais.

Mais dois dias se passaram e nosso mundo caiu. Irritada com aquele bando de adolescentes enfiados no quarto dos filhos, escutando música alta, para abafar nossos sussurrosos comentários, a mãe esperara alguns minutos. Abriu a porta do quarto de supetão. Acendeu a luz e pegou um grupo na janela e outros espalhados. Eu, pego de surpresa como todos os outros, dera meu lugar momentaneamente no revezamento obrigatório, e estando em frente a ela e sem saber o que fazer, iniciei ridiculamente uma dança, tocando uma guitarra imaginária, para fingir que estava delirando com o rock da vitrola. Ela esboçou um sorriso e, antes desconfiada e agora sabedora, como toda mãe quando intui que algo muito errado acontecia ali, se encaminhou até a janela. Todos se afastaram respeitosamente, em pânico e em silêncio absolutos. Ela fez o mesmo que todos: espiou pela fresta da persiana e viu. Virou-se diretamente para mim e perguntou:

− Que apartamento é aquele?

Ninguém pensou em mentir, muito menos eu, afinal ela sabia que o apartamento onde eu morava era daquele lado. Talvez não soubesse qual, porém sabia que era mais abaixo. Ordenou a saída de quase todos imediatamente dali. Ordenou que eu e seus filhos esperássemos. Todos desceram em retirada apressada, alguns foram pulando pela escada sob ataques de risos nervosos, sabedores que a aventura terminara ali.

Ela desceu comigo. Foi até meu prédio e pediu para falar ao interfone com a moradora do apartamento em questão. Pediu para subir, pois o assunto era urgente e não podia ser tratado ali e ela entenderia assim que soubesse do que se tratava. A vizinha, curiosa, a convidara para subir imediatamente. Ela ordenou que eu fosse para casa. Era óbvio que ela contaria o acontecido com delicadeza e cuidado, pedindo para que a moça tomasse mais cuidado e dizendo qual era a posição correta para que as lâminas da persiana não proporcionassem espetáculos involuntários.

Com o tempo, todos souberam do acontecido. Todos nos ridicularizaram. Alguns com profunda inveja e mágoa por não terem sido convidados. Todos queriam saber detalhes, até as meninas. Aquele assunto rendeu semanas até que outros se sobrepuseram. Minha dança ridícula nunca foi esquecida e foi motivo de chacota e gargalhadas durante anos. Hoje me vejo com saudades daquelas semanas. Não apenas do corpo ou da descoberta daquela nudez da jovem linda, mas do momento compartilhado, do segredo dividido, da cumplicidade.


FIM

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