• Juan Page

Longa espera.

“Ela é culpada. Por quê? Olhando para o outro lado do rio, sua figura destoa. Em nada se parece com a mulher que estará na Casa de Madame Kraver mais tarde. Cabisbaixa com as roupas largas parece uma camponesa pobre carregando sua lamparina apagada ao final do dia, pronta para acendê-la quando a escuridão surgir. Seu olhar triste transparece de longe, mesmo que eu não tenha um vislumbre de seus olhos. Não percebeu que eu a sigo. Sua solidão no descampado com a floresta ao longe é uma paisagem marcante. Mesmo não tendo as formas opulentas das quais os homens tanto gostam, Cíntia faz sucesso. Alegria e ousadia são suas marcas. Os que desfrutaram de seus serviços, afirmaram que suas habilidades são incomparáveis. Seu corpo musculoso tem lá sua beleza para aqueles que gostam das mulheres descarnadas. Rá! Faz os homens delirar. Desde o dia em que chegou, portanto, antes das notícias sobre suas técnicas desconhecidas de prazer ficarem famosas, ela já fez sucesso. Sua dança sensual e seu jeito atrevido mostraram que ela era especial. Mestre Gerav ficou louco por ela e a monopoliza sempre que aparece na casa de Madame. Ela surgiu há cerca de três anos. Tem sotaque da região norte. Ela é uma das meninas de Madame que mais agradam. Ela fez um bom dinheiro desde que chegou. Por que ela estragaria tudo matando esses três homens? Que outros segredos esconde? Posso estar errado. As dúvidas me consomem e por isso ainda não revelei minhas suspeitas. Mestre Gerav quer saber quem matou seus homens de confiança. Eu sou um dos quatro homens, o último vivo, que cuidava de sua segurança pessoal, em tempos de paz e de guerra, designados para a tarefa pelo seu pai, o barão de Marrascat, que escolheu os melhores. Sobrevivemos a dezenas de batalhas. Formamos um elo de amizade profundo. Mestre Gerav e Lusdred foram os únicos que se deleitaram com seus serviços. Eu, Mulki e Serin não quisemos experimentar. É uma bruxa que enfeitiça os homens, dizem. Rá! Entre suas coisas, que já revistei, não há nada que recorde alguém que pratique feitiçaria. Pura inveja dos maledicentes. Vingança... Só isso explicaria... Deve ser contra o barão. Mestre Gerav é querido por todos. Apesar de ser o herdeiro de tudo é um rapaz simples, de bom trato. Eu acompanho o mestre desde seus 15 anos e não fez inimigos. Já seu pai...”


“Coret ainda me segue. De mim, desconfia ele. Certeza não tem. Denunciado já me teria. Cuidado... Ele é o mais inteligente. Mestre Gerav, ingênuo é. Lusdred, Mulki e Serin também eram. Pistas não deixei, porque desconfiou de mim, então, o Coret? Nenhum se lembrou de mim. Os que se foram não entenderam quando gritei: Disfev. Continuar fingindo que não o vi, devo. Divertido é, deixar Coret pensar que controla a situação.”


— Mestre Gerav, honra a nós com sua visita esta noite...

— Estava com saudades de teus tratos, Cíntia...

— Por isso não seja... Quer subir?

— Sim. Depois dos últimos acontecimentos envolvendo meus homens...

— Por isso trouxe mais guardas?

— Sim. Insistência de Coret...

— Ele um bom soldado e amigo é.

— Sim. O melhor. Vamos!

— Coret, cuidarei bem de nosso senhor...


“Mesmo que Cíntia seja a assassina, aqui ela não fará nada. Essa incerteza me ataca as entranhas. Meus pensamentos não me deixam! Preciso saber mais sobre ela. Será que alguma das meninas sabe algo? Viram Cíntia se encontrar com Mulki e Serin pouco antes da hora em que foram atacados. Seus corpos só foram descobertos na manhã seguinte. Os mesmos que os viram conversando disseram que foram para lados opostos. Lembro agora detalhes que não percebi antes. Lusdred disse que ela perguntava muito sobre o barão e sobre nós. Sou observador e a desconfiança me fez rever seus olhos inquietos nos analisando sempre que estávamos aqui, com ou sem o mestre. Mesmo conversando com outros clientes e frequentadores, ela nos observava, nos estudava... Ou foi impressão minha? Meu instinto fala contra ela. Sempre confiei nele. Escapei da morte em inúmeras batalhas por causa dele. Em tempos de paz, me fez desconfiar de estradas ruins, cheias de perigos e do movimento estranho dos condados inimigos. Falharia agora ou se mostraria mais aguçado com a idade? Já tenho quase 40 anos, não sou mais moço. Algo nela me atrai e me causa repulsa, desde o primeiro dia. Atrapalha meu julgamento. Se não for Cíntia, nem sei por onde começar a investigação. Mestre Gerav está agindo normalmente, para não deixar que percebam como o atingiram. Eu sei o quanto chorou a morte de seus leais soldados e amigos...”


“Durma, meu doce Gerav! Me diverte o mestre. Dou prazer a homens e mulheres, e sei ter prazer também. Para uma discípula das artes Jing, prazer e morte são ofícios. Durma, meu doce Gerav! Teu fim te espera na curva do rio. O teu e o de Coret. Em três dias, quando forem para a reunião em Alentera, esperarei. Tudo certo está. Inocentes morrerão. A vida é imperfeita. A vingança tem seus caminhos próprios. Essas mortes paz te darão finalmente, pequena Portin.”


A comitiva de mestre Gerav era constituída de quinze homens bem armados, Coret um deles, sendo que quatro eram arqueiros especializados. Na carruagem estavam Gerav e mais dois soldados. As comitivas que faziam as vistorias em regiões específicas, nunca eram tão fortemente escoltadas. Não havia necessidade de aparato militar amplo antes, pois muitos torciam para que Mestre Gerav herdasse logo o baronato e se tornasse o senhor absoluto do condado. Andava sempre com seus quatro fiéis acompanhantes e nada mais. Com a morte de três deles, todos acreditavam que mestre Gerav era o alvo. Ninguém entendia o motivo. O próprio barão quisera fazer essa expedição, já que intuía que ele era o alvo, queriam atingir seu precioso herdeiro para castigá-lo. A desconfiança era de que se tratava de uma família derrotada e cujas terras haviam sido anexadas a Marrascat ao longo dos anos. Havia cinco famílias nessa situação. Entretanto, por causa de mestre Gerav, o povo desses condados acabara gostando da mudança e apoiava a nova família. O barão deixara o filho ser o rosto da família desde que percebeu que o senso de justiça e a facilidade de fazer aliados de Gerav fariam muito mais pelas conquistas do que sua força e capacidade de guerrear. No fim das contas, era ele quem comandava tudo e o filho lhe era obediente. Contudo, sempre ouvia o rapaz, que mostrava uma sensatez destoante de sua idade. O futuro do condado estava seguro, pois o próprio rei admirava Gerav. Homens assim são raros, todos sabem, e devemos tê-los sempre por perto. O príncipe lhe estimava também. A importância do condado crescia no reino. Por essa razão, Coret e o barão traçaram planos minuciosos, para proteção e, se tivessem sorte, para apreensão do inimigo invisível. Para tanto, quatro batedores foram enviados meia ampulheta pequena antes, na direção oposta, para que mais adiante tomassem outra estrada mais vazia e que se encontraria com a estrada da comitiva mais à frente, na curva do rio. A missão é inspecionar a estrada antes. Mais cinco guardas, sendo três arqueiros, seriam enviados na retaguarda, meia ampulheta pequena depois. Se um ataque surpresa passasse pelos batedores enviados antes e estivessem castigando a comitiva, estes cinco os apanhariam também de surpresa. Toda a operação foi planejada em segredo.

Os quatro batedores enviados antes da comitiva principal, já se encontravam na pequena estrada que ia acabar no entroncamento na curva do rio. Aceleravam o ritmo de seus cavalos o mais que podiam. A estrada era apertada e comportava no máximo uma carroça de cada vez. Cavalgavam em fila. Ao chegar à estrada principal, dois batedores voltariam e se encontrariam com a comitiva, varrendo o caminho e os outros dois iriam percorrer a estrada principal para Alentera, procurando perigos naquela direção. A flecha atingiu o primeiro cavaleiro direto em seu pescoço, atravessando-o totalmente. Seu corpo caiu imediatamente da sela e os cavalos que vinham atrás e perto não conseguiram se desviar, assustando-se e derrubando todos os seus cavaleiros. Mais três flechas atingiram-nos enquanto se levantavam. Apenas o primeiro a se levantar foi morto da mesma maneira que o primeiro cavaleiro, os outros dois foram feridos mortalmente. Viram um vulto sair por trás das árvores. Estava todo coberto por uma espécie de uniforme de cor cinza-esverdeada que não se percebia quando dentro da floresta. Apenas viram seus olhos quando uma espada fina lhes perfurou o coração numa velocidade que não lhes permitiu reação. O vulto retirou rapidamente os corpos da estrada, jogando-os na mata e amarrou os cavalos fora da estrada. Não queria que voltassem para a sede do condado, como costumavam fazer os cavalos de guerra. O castelo não seria alertado facilmente, por enquanto pelo menos.

Cíntia viu a comitiva passar diante de si. Estava invisível na mata com sua vestimenta cinza-esverdeada. Coret ainda estava calmo. A estimativa que tinham era de encontrar os batedores na volta do entroncamento dali a meia légua apenas. Cíntia esperaria a retaguarda chegar. O ataque aos batedores fora rápido e certeiro. Perdera pouco tempo ali. Descansara o suficiente do primeiro ataque. Se tudo corresse bem, no entroncamento da curva do rio ela teria sua vingança final. A armadilha ali deveria inutilizar quatro homens, cinco com sorte, ela cuidaria dos outros facilmente. A surpresa é sempre um aliado fatal. Coret deveria apenas ser ferido, se pudesse, era um homem perigoso.

Agora era hora de manter a atenção no grupo da retaguarda. Esperou um pouco e desceu até a estrada. Trouxe consigo o fio de seda que amarrara na árvore mais grossa da estrada e se escondeu do outro lado. Calmamente viu os cinco guardas que formavam a retaguarda entrarem em seu campo de visão. Esticou a corda quase invisível naquele sol da manhã e amarrou em outra árvore deste lado. Ela sabia que o combinado era manter a distância inicial sempre. Tivera sorte, pois estavam a trote médio, controlando a distância. Seria mais fácil assim. A formação deles era típica: um arqueiro na frente, um de cada lado da estrada e os dois soldados de infantaria no centro. O cavaleiro da frente caiu de repente de seu cavalo. Uma flecha rapidamente acertou o pescoço do arqueiro que estava do lado direito da estrada que nem teve tempo de tirar seu arco das costas. O outro, de arco na mão, apanhava uma flecha em sua aljava quando outra perfurou seu olho direito. O arqueiro caído puxava sua espada, já que sua aljava havia continuado em sua montaria, assim como os outros dois cavaleiros que tentavam conter as suas que haviam se assustado com aquele vulto que aparecera das matas. O arqueiro ganhou uma flecha em seu ombro e outra em seu ventre. Os cavaleiros refeitos tentaram ladear o vulto, que num salto para frente, rolando pelo chão numa cambalhota, passou para trás deles, virou-se e lançou duas adagas, uma nas costas de cada um. Retirou rapidamente uma espada fina e perfurou os homens, um no coração e outro no pescoço. Correu até o arqueiro que caiu no chão e se mexia ainda depois das flechas e perfurou seu coração. Guardou a espada fina e correu até seu cavalo. Agora não podia mais se dar ao luxo de esconder os corpos e nem amarrar os cavalos. Tudo corria como planejado.

Coret estava inquieto. Os batedores não apareciam e eles estavam a um quarto de légua da curva do rio. Não sabia se mandava um homem para saber se seu atraso se deu por conta da descoberta de algo ou se estavam mortos por causa de uma emboscada ou se algo os atrasara. Não queria perder um homem sequer e imprevistos sempre aconteciam. A outra estrada era conhecida por ser estreita. Uma carroça virada podia atrapalhar tudo. Ordenou atenção aos seus homens. Explicou o que fora arquitetado e que fora escondido deles. Todos se empertigaram e passaram a ter atenção máxima, se Coret estava preocupado, eles deveriam estar também.

A comitiva parou. A curva do rio estava deserta. Nem sinal dos batedores. Coret ordenou que sacassem suas armas. Os arqueiros estavam com uma flecha na corda de seu arco. Gerav e os soldados estavam de espada em punho dentro da carruagem. Um zumbido se ouviu e vários dardos, vindos de todas as direções acertaram os homens montados. Todos desmontaram e começaram a gritar. Por formação, os arqueiros ficavam um de cada lado da estrada e dois na frente. Cíntia nunca entendeu essa formação clássica. Entendia a lógica por trás dela: os arqueiros da frente parariam e atacariam com flechas enquanto os soldados de trás avançariam sobre o inimigo de espada em punho, mas fazia dos arqueiros os principais alvos em toda emboscada, tanto que dois deles não levantaram do chão. Os outros estavam bem feridos, não conseguiam levantar seus arcos corretamente. Um soldado morto e outros três sem poder levantar suas espadas adequadamente. Todos os outros foram feridos levemente. Coret estava com um dardo fincado em seu maxilar direito. Cada um dos soldados com pelo menos um dardo preso em alguma parte do corpo. Cíntia sorriu. O veneno não matava, mas entorpecia com o tempo. Como estavam assustados, prontos para se defenderem, não os retiravam, o que ajudava a espalhar o veneno pelos seus corpos. Ela esperou. Um dos soldados tinha quatro dardos em seu corpo, de repente, sua mão começou a pesar e a sair da posição correta. Piscava fortemente. Coret percebeu e gritou para que todos retirassem os dardos de seus corpos, ele mesmo puxando o que estava em seu rosto com força. Esse movimento os condenou. Se continuassem atentos, teriam sobrevivido, pois seu número excedia o que Cíntia poderia fazer, mesmo com seus movimentos velozes. No entanto, ela sabia que assim que desconfiassem do envenenamento, o medo seria maior e eles estariam à sua mercê. Atacando com movimentos sinuosos, em segundos estavam todos mortos e Coret com várias flechas, uma em cada ombro, uma que destroçara seu joelho direito e outra atravessada em sua coxa esquerda. Ela derrubou Coret e chutou seu rosto. Perfurou seu corpo com a espada fina em vários ângulos. Não o matou. Gerav e os dois soldados saíram da carruagem no momento em que viram o assustado cocheiro ser atingido por uma flecha mortal. O vulto lançou flechas rapidamente contra eles enquanto corria em sua direção. Foram atingidos diversas vezes. Cíntia jogou o arco longe e tomou uma espada no chão quando se aproximou e matou os soldados. Gerav tentou lutar, porém, a flecha que o atingiu e o pavor de perceber que só uma pessoa fizera todo aquele massacre, não deixou que ele se defendesse com vigor. Ele estrebuchava no chão quando ela retirou os trapos que escondiam seu rosto. Gerav empalideceu e ela disse: Disfev. Uma espada entrou pela garganta de um jovem de olhos arregalados. Andou novamente até Coret.


— Eu ouvi, humf, Disfev?

— Sim.

— Matamos todos...

— Eu a menina de 12 anos era. A que o porco Gerav quis como iniciação de vitória em batalha e que você incentivou... Coret gargalhava... Vocês cinco me usaram e deixaram tão mal que quase meu coração não se ouvia... Mas vivi e estudei as artes Jing. Vingo a mim, minha irmã Portin e toda a vila.

— Era nosso direito de espólio... Humf... Vagabunda...

— Disfev!

FIM

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