• Juan Page

INSÔNIA

Uma luz se apaga pela janela. O teto, meu companheiro insone, fica mais escuro. Algum vizinho conseguiu o que eu não consigo: dormir. Estamos a um mês neste suplício, eu e meu corpo, já que o cérebro não quer colaborar. No começo conseguia deitar os olhos por umas três horas, de lá para cá nenhum progresso. Eram pelo menos ininterruptas. Há três dias nem isso. Acho que é hora de ir ao médico. Leite quente, morno? Já tentei. Relaxamento? Também. Exercícios? Claro! Meu corpo está úmido do banho quente que acabo de tomar para ver se adianta. Meu corpo está úmido do suor e o ardor pelo corpo me deixa mais desesperado. Acho que a água estava quente demais. Vou ser demitido! Estou em processo de decomposição interna. De fora não se percebe muito, a não ser pelas olheiras. Sinto que chegará o momento em que não terei mais o controle de minhas funções e ficarei prostrado nesta cama percebendo meu cérebro definhar. Levantar-me-ei.

Vou me atirar por esta janela! Assim poderei dormir. E se por acaso tudo o que aprendi no catecismo for verdade? Esqueci quase todos os ensinamentos, mas, se não me falha a memória neste processo de deterioração, suicídio é um pecado mortal. Purgatório ou Inferno? Não lembro, entretanto, no primeiro teria que vagar expiando meus pecados e no segundo com aquele calor não iria conseguir dormir.

Uma rezadeira resolveria meu problema? A lua está descendo. Recuso-me a olhar para o relógio e ter consciência do tempo de sono que estou perdendo. Melhor a ignorância. Se pelo menos fosse casado, teria com quem compartilhar este martírio. Um sexo seria relaxante. Na pior das hipóteses teria alguém para encher o saco. E se chamasse a Martinha para dormir aqui amanhã? Não. Aquela só pensa em casar e é bom não deixar margem a dúvidas. Ana Maria? Não. Depois do sexo parece que ligam um motorzinho em sua língua e só pára de falar para uma nova seção ou depois de duas horas, foi por isso que deixei de sair com ela. Celeste? Não. Casou. Lurdinha? Hummmm, faz até chover na cama. Seria uma boa descarga de energia, além dos benefícios óbvios. Porra, cacete! Lembrei: ela mudou para o Nordeste.

Um pai de santo ajudaria? Talvez se largasse o cigarro. Mas quem me faria companhia? Distraio-me olhando a fumaça subindo e formando serpentes aleatórias. Agora então que tenho um motivo para extravasar minha natureza rebelde, não deixaria de fumar. Sou branco, jovem, bem nascido e bem sucedido profissionalmente, mas finalmente faço parte de uma minoria! Exagero ser chamado ainda de minoria, embora perseguido como um assassino em potencial ou um canalha pelo simples fato de gostar de dar umas baforadas. Recuso-me a obedecer a essa acachapante propaganda que coloca a mim e meus companheiros consumidores de tubinhos queimantes como inimigos da sociedade! Tanta coisa para se preocupar: crianças com fome, maltratadas; mulheres espancadas; milhões em todo o mundo sem condições dignas de vida e nós somos a atual escória da humanidade? Fumo como ato de protesto pela minha liberdade individual. Fumo como ato de protesto contra essa campanha feita por ex-fumantes chatos que não podem ter mais esse prazer por algum motivo e querem tirá-lo de mim. De nós. Inveja! Faz mal? Faz, agora, quem tem que decidir o que fazer sou eu e não esses hipócritas.

Vou ler um livro. Melhor não. Nunca consigo deixar de lado, tenho que ler até acabar ou até que seja obrigado a parar por algo urgente ou imperativo. Livros não me dão sono. Pior, atiçam minha imaginação e dependendo do autor alimenta o filósofo escondido que trago internamente desde a infância. Contudo, já que não consigo dormir mesmo, seria um companheiro interessante. Já li todos os que estão aqui. Relê-los ou comprar novos? Melhor ir para a casa de meus pais hoje depois do trabalho e ver se têm algo que ainda não tenha passado por minha avidez.

Ih! Mamãe vai notar e me atormentar. Mães sabem tudo. Quando não acertam, passam perto. O certo é que sempre sabem quando alguma coisa está errada. As outras, às vezes, fazem de conta que nada perceberam. A minha nunca!

Acupuntura resolveria? Vou ligar para alguém. Não. Sacanagem. Não dormir e ainda não deixar os outros dormirem. Juro que nunca mais acordo ninguém, a não ser que me peçam ou que estejam atrasados para algum lugar. Nunca havia percebido como o sono é realmente sagrado. Quantas noites passei em claro na farra? Minutos de sono preciosos perdidos para sempre! A esta hora seria até perigoso, poderia matar alguém do coração! Telefone tocando de madrugada ou é desgraça ou é engano. Sempre tem um filho da puta que liga para atazanar a vida de um condenado e ainda erra o número. Ou será que são insones desesperados à procura de outra alma companheira de agonia? Será que posso chegar nesse estágio? Enlouquecido pela solidão e falta de sono, discaria a esmo somente para ouvir: “Não, aqui não tem ninguém com esse nome, foi engano.”; somente para perceber que não estou sozinho no mundo?

Será que existe um IA, Insones Anônimos? Vou sair. Rodar de carro por aí. Puta que pariu, não posso, meu carro está na oficina. Andar a esmo seria entediante. Deve estar tudo fechado, segunda-feira de madrugada nem ladrão! Que merda! Nada pra fazer, nem distrair. Trocaria tudo por alguns segundos que fossem de sono.

Televisão! Não. Ontem só havia filmes terríveis nos trezentos canais. Nem os eróticos da madrugada prestavam. Todos repetidos. Hoje talvez sejam bons...

Prender a respiração até desmaiar causaria algum dano cerebral? Pior do que já está impossível... Quando começarei a delirar? Ou já estou?

Internet! Não. Não tenho vontade de conversar via bate-papo com ninguém. Podia navegar procurando músicas, visitando museus. Não. Nada disso me faria bem agora. Não tenho vontade de fazer nada, absolutamente nada. Quero dormir, CARALHO! Li em algum lugar, alguma vez, que não dormir mata: devo estar morrendo...


— Onde estou? Será isto o céu, o purgatório ou o inferno? Mãe? Mãe, o que você está fazendo aqui?

— Calma, filho, está tudo bem agora.

— O que aconteceu?

— É uma longa história.


Ela sai pela porta e ele percebe que está em um quarto de hospital. Um tubo de soro pendurado ao lado da cama se liga ao seu braço. A primeira imagem que lhe vem à cabeça é o sertão nordestino. Sente-se o próprio. Sua boca seca clama por água. Sente no estômago uma aridez infecunda. Entram pela porta a mãe, o pai e um desconhecido de branco, provavelmente o médico, ou talvez o médium e seja assim que uma alma se sente do outro lado, recém-passada, doente e em choque pela violência que deve ser a morte.

O médico, agora ele tem certeza, examina sua pulsação; porra como o estetoscópio é frio; abre suas pálpebras; será que a luz daquela lanterninha o faz enxergar algo ou é só para melhorar a deficiência visual?


— Sente-se, por favor.


Recém agora notava como doía seu corpo. O esforço para sentar-se foi enorme. Fraqueza? Deve ser das noites mal dormidas ou indormidas. De madrugada não parecia estar tão ruim.


— Respire fundo.


“Porra! Essa merda é gelada mesmo.”


— Meu filho está bem, doutor? - disse seu pai preocupado.

— Na medida do possível, os dias sem se alimentar comprometeram um pouco seu organismo, com os medicamentos ministrados, os exames sanguíneos melhoraram bastante desde anteontem quando chegou aqui. Como acordou, vamos deixá-lo aqui hoje em observação e aproveitar para começar a alimentá-lo adequadamente e ver se suas funções voltam ao normal.

— Dias?

— Três.

— O que houve? Mãe? – Estava assustado agora.

— Depois, filho. Depois.

— Quero saber agora! Tô morrendo? Que merda que aconteceu comigo?

— Vou deixá-los sozinhos. Voltarei em uma hora para mais exames e mandarei a enfermeira trazer algo para que coma.

— Estou esperando - disse ele impaciente depois de alguns longos segundos.

— Nós nunca lhe dissemos nada porque o Doutor Medeiros...

— Meu pediatra?

— Isso. Bem, ele não, mas o neurologista disse que você poderia não ter os sintomas nunca mais.

— Neurologista? Eu nunca soube que tive um neurologista e sintomas de quê, caralho!

— Olha a boca, menino!

— Já tenho trinta e seis anos, mãe...

— E só por isso não vai me respeitar?

— Tá bom mãe, desculpe...

— Sem interrupções, hein! Bom, quando você tinha seis anos, em abril daquele ano para ser mais exata, você começou a dormir muito mal. Passou uma semana dormindo muito pouco. Consequentemente, você chorava com sono e por que não conseguia dormir. Fomos ao doutor Medeiros e ele lhe receitou um chá. Dois dias e nenhum efeito. Fomos para os calmantes e nada. Fizemos eletro-encefalograma e um monte de exames. Visitamos até um neurologista amigo de seu pediatra e não conseguiram descobrir o que você tinha. Depois de quase um mês, você ficou três dias acordado ininterruptamente. – pausava sua fala, pois era nítido que aquela lembrança lhe causava profundo mal-estar. – De repente, caiu duro. Desmaiou de cansaço. Chamamos o doutor e ele constatou que não havia nada de errado. Cansaço. “Deixem-no dormir o quanto quiser.”, ele disse. Deixamos. Seu pai ligava do trabalho preocupado, pois você não acordou pra nada. De vez em quando eu procurava ver se você estava respirando, entrei em contato com o neurologista e ele achou aquilo muito estranho, porque nem ao banheiro você ia. O neuro veio junto com o doutor Medeiros e resolveram te internar, pois você não reagia. Até tiraram sangue para fazer exames e você nem esboçou reação. Estava praticamente em coma. No hospital, no dia seguinte, você também não acordou. Puseram sonda, seus órgãos excretores não funcionavam, estavam envenenando seu sangue. Remédios e algumas outras providências foram tomadas e ficou quase tudo bem, pois você estava sendo monitorado dia e noite. No terceiro dia o mesmo quadro. Os médicos não sabiam mais o que fazer. Foi por uma dessas coincidências do destino, mas tenho certeza de que foi meu santo de devoção, São Francisco, que um neurologista de renome internacional estava passando pelo hospital em visita, tinha vindo prum congresso e lhe comentaram sobre seu caso. Ele foi até seu quarto, verificou todos seus exames e deu o diagnóstico: você era o décimo caso registrado no mundo da Síndrome de Liansson, com dois esses. Ele ficou excitadíssimo. Foi correndo telefonar para o Instituto de que fazia parte lá na Europa. Quando voltou explicou o que era. Não preciso dizer os sintomas, parabenizou os doutores Medeiros e Péricles, o neurologista, pela rapidez da ação, pois você poderia ter morrido e disse que dificilmente você teria outro ataque daqueles, que não se conhecia direito a doença por ser extremamente rara. Pediu permissão para exames mais minuciosos, o que era absurdo, nosso filho não iria ser cobaia de ninguém! Finalmente, no quarto dia você acordou e não se lembrava de nada.

— E porque vocês nunca me contaram isso? Eu realmente não lembro de nada disso!

— Você era muito pequeno e podia nunca mais ter outro ataque na vida.

— Você concordou com isso, pai?

— Claro! Quando você chegou à adolescência pensamos em te contar, mas o tempo foi passando e um assunto tão delicado, pelo susto que passamos, podia te deixar preocupado. Depois, é uma doença rara que pode te levar à morte, mas também não limita sua vida e que podia nunca mais aparecer.

— E se eu morresse? Porra, se vocês tivessem me contado essa merda, eu teria procurado um médico ou vocês assim que comecei a ter a maldita insônia! Como eu cheguei até aqui?

— Meu querido nós tomamos todas as providências. Eu telefonei pro seu trabalho e você não tinha dado notícia. Estavam loucos atrás de você por algum problema no escritório. Na sua casa o telefone tocava, tocava e nada. Fui até lá. O porteiro não tinha te visto sair. Perguntei se seu carro estava na garagem e o seu Onofre disse que ele estava na oficina. Fui ao seu apartamento e usei aquela cópia da chave que você me deu quando viajou para a Europa. Te vi nu no sofá babando. Toquei no seu braço e nenhuma reação. Liguei imediatamente pro seu pai, pro seu pediatra, afinal ele conhecia seu histórico médico e chamei uma ambulância. Depois entrei em contato com aquele rapaz, seu amigo do escritório...

— Jorge.

— Isso. Expliquei pra ele seu caso enquanto esperava todos chegarem. Nós sempre estivemos de olho em você meu querido, ou você acha que eu te ligava todos os dias só por que sou uma mãe chata?

— Desculpe, mãe, mas eu achava.

FIM

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