© 2023 por Amante de Livros. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • White Facebook Icon
  • White Twitter Icon
  • Branco Ícone Google+
  • Juan Page

BLOCO DE TERÇA

Este conto ficou entre os dez finalistas no I Concurso Cuéntame un cuento, do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca (Espanha).

Lá estava ele em frente ao espelho, colocando a fantasia de Pirata, fazendo um balanço de três dias de carnaval, partindo para o quarto. Aos 18 anos era seu primeiro carnaval longe dos pais. Sem a obrigatoriedade da ida à Petrópolis visitar a avó e ficar cinco dias enfurnado no mato. Não que não a amasse. Não que a infância passada lá lhe fosse indiferente. Adorava a avó e o lugar. Em sua memória afetiva, aquele era um lugar mágico. O carnaval sozinho era o passo adiante na sua hombridade. Era a ordem natural do universo. Iria para Petrópolis visitar a avó depois. Sozinho novamente. Comemorava o término de sua adolescência e início de sua vida adulta. Iniciaria a faculdade de direito logo após o carnaval.

Seguia à risca as instruções maternas. Mesmo bêbado, ao voltar dos blocos de carnaval que pululavam pela cidade do Rio de Janeiro. Na verdade não era muito difícil para ele, já que possuía certa propensão à organização exagerada desde pequeno. Seus amigos mais íntimos diziam que ele sofria de Transtorno Obsessivo Compulsivo quando o quesito era organização. A casa estava arrumada de maneira impecável. Para tanto, não permitia a entrada dos amigos no apartamento. Sábia decisão.

Avaliava a quantidade de beijos ganhos de mulheres. Ficou muito feliz, pois mesmo os amigos agora seguiam sua tática. Tática simples, aliás: não ser invasivo. O que no carnaval significa não agarrar, puxar cabelos, e tudo o que costumam fazer proto-homens, ou seja, qualquer atitude imprópria machista e idiota que alguns homens acham ser próprias e banais, pelo menos no carnaval, quando na realidade não o são nunca. Ele tinha uma irmã mais nova e sempre viu isso como ato injustificável. Ter irmãs ajuda a educar adequadamente um homem. Pelo menos boa parte deles. Os amigos perceberam que essas atitudes, ou melhor, não-atitudes, faziam com que ele se aproximasse mais rápido e melhor das moças. Ele conversava apenas. Tinha bom humor, era bonito, era educado. O oposto de um pirata e usava essa contradição: dizia que era um pirata politicamente correto e tirava sempre um sorriso dos rostos femininos. Deu muito certo no carnaval daquele ano.


Lá estava ela em frente ao espelho, colocando a fantasia de Pedrita, fazendo um balanço de três dias de carnaval, partindo para o quarto. Aos 18 anos era seu primeiro carnaval longe dos pais. Sem a obrigatoriedade de ir aos mesmos blocos de carnaval que eles. Ter pais foliões era uma grande vantagem. Não viajar nunca era uma delas. A outra é ter se apaixonado pela festa momesca desde muito cedo. Não podia imaginar sua vida sem o samba, sem o carnaval. Em sua memória afetiva, aquela época do ano era mágica. O carnaval sozinha era o passo adiante na sua emancipação como mulher. Era a ordem natural do universo. Comemorava o término de sua adolescência e início de sua vida adulta. Iniciaria a faculdade de matemática logo após o carnaval.

As amigas todas combinaram de se fantasiar de Pedrita. Menos Patrícia é claro, que sempre queria se destacar. Como se só por ser ela, isso já não acontecesse! Linda morena de olhos verdes e corpo escultural. Os homens babavam por ela. Descrição clichê, única capaz de ser totalmente verdadeira com a aparência dos homens, de todas as idades, quando a viam passar. Ela é que era esquisita. Possuía um pai maluco, que não lhe dava atenção. Coitada. Por isso bebe demais. Trepa demais com os homens errados. Não que o sexo fosse errado ou que ela mesma não gostasse, sendo uma espécie de puritana, entretanto, trepar só para dizer que trepou não fazia parte do que ela pensava ser o papel feminista. E a amiga trepava sempre, numa tentativa louca de se sentir querida, amada, ou sei lá quê. Como recebeu uma educação liberal, não achava errado beijar vinte ou dez homens diferentes e nem trepar com todos eles, desde que isso fizesse parte do seu querer. Beijar ou trepar com um, com dez ou com ninguém, fazer o que quiser com seu corpo, sim, era a atitude feminista que seus pais esperavam dela: o direito à escolha. Por isso beijara bastante nos dois primeiros dias. No terceiro não apareceu ninguém que lhe interessasse e preferiu se esbaldar só, nos dois blocos aos quais compareceu. Ela sabia que a amiga não tinha essa atitude, apenas buscava sentir algo a mais sempre. Algo que ela ainda não sabia o que era, ela sabia, afinal eram amigas do tipo que não se viam uma sem a outra.

Lutava contra os inconvenientes com sorrisos e recusas gentis e ofídicas. Girava o corpo e contorcia-se para longe do idiota de plantão que se apresentava. Era mais fácil para ela, pois o álcool não fazia parte de suas preferências. Não o suportava. Nada contra quem bebia, pelo contrário: até que gostaria de gostar do paladar. Não conseguia. O sabor do álcool lhe era insuportável. Podia beijar homens fedendo a álcool desde que o sabor de suas bocas não estivesse impregnado demais dele. A cerveja era a bebida que lhe causava menos asco, apesar do cheiro ser dos mais fortes. Ela achava que o sabor do álcool ficava mais disfarçado. Lembrava-lhe os livros que lera sobre a idade média, quando a cerveja era tida como o pão líquido. O sabor lembrava o de pão.


O Bloco de Terça saía da praça religiosamente às nove da manhã e percorria o bairro num trajeto sinuoso. Era um bloco tradicional e de frequência crescente. O Bloco de Terça estava já no início da primeira rua onde entrava à esquerda, quando eles se viram. Ficaram parados um em frente ao outro. Calados. Sérios. Olhos nos olhos. O minuto se alongava na relatividade do momento: uma eternidade. O tempo fluido se desfazia qual um Dali exposto. Para quem via de fora também: duas pessoas se olhando durante um minuto sem falar nada em pleno bloco de carnaval com pessoas passando por eles pulando e sorrindo e cantando, era uma eternidade. Beijaram-se suavemente. Ninguém entendeu. Todos esperavam uma explosão de desejo e não a ternura suave dos lábios que se colaram delicadamente. Permaneceram naquele beijo durante longo tempo. O bloco passando em volta deles num fluxo contínuo, até que terminaram e se olharam mais uma vez. Sorriram, deram-se as mãos e saíram dançando e pulando e cantando acompanhando o samba: “eu hoje vou tomar um porre, não me socorre que eu tô feliz”... O Pirata e a Pedrita saracoteando, entregues aos augúrios de Momo o rei do carnaval. Os amigos dos dois, abandonados sem pestanejar, olharam uns para os outros sem entender nada e saíram sacolejando atrás, todos um tanto desconcertados, pois tinham certeza de que ninguém ali se conhecia, exceto os dois que saíram na frente, logicamente. Todos se perguntando quem era ele, quem era ela, que não conheciam...

Depois de duas horas de desfile pelas ruas do bairro, voltaram à praça inicial. O carro de som se dirigia ao meio da praça, na rua. A bateria se posicionava a seu lado, dentro da parte central da praça, onde um pequeno coreto resistia às intempéries do tempo corrido. Os foliões se espalhavam envolta dela, cantando e dançando. Os que estavam em procissão se posicionaram em torno destes, formando uma plateia da alegria alheia. O Pirata e a Pedrita dançavam e cantavam e se beijavam sem parar. Não deram atenção alguma aos companheiros de jornada carnavalesca. O mundo era dos dois e o bloco existia apenas para eles. Durante as duas horas seguintes foi assim. Conversaram pouco. Beijaram-se bastante. Cantaram e sambaram o tempo inteiro. A alegria nos olhos. A felicidade de estarem juntos naquele momento. Havia o brilho típico dos apaixonados em seus gestos. Quando o bloco chegou ao fim, ela disse:


− Tenho que ir, porque hoje é aniversário de uma amiga de infância da minha mãe e tem um churrasco na casa dela e eu a adoro...

− Claro. Vai. Me dá um último beijo.


Sorriram e se olharam demoradamente, viraram as costas e foram embora.


− Pô cara, que gata... Daonde que tu conhece?

− Daqui.

− Da praça? Você vem sempre aqui desde quando? – o amigo olhava incrédulo.

− Não, de hoje...

− Você a conheceu hoje?

− Porque o espanto?

− Porra... é que pelo olhar, pelo que eu vi, quer dizer, eu e os outros pensamos que você já a conhecia de outro lugar...

− Parecia mesmo né?

− E qual o nome dela?

− Não faço a mínima ideia.


Patrícia lhe acompanhava alegre. Ela também iria ao churrasco, sua mãe estaria lá também. Afinal elas eram amigas desde o berço porque as mães eram amigas desde sempre.


− Po, daonde você conhece o cara? Nunca me falou dele sua monstra sem alma que me esconde coisas...

− Esconde o quê maluca? Eu conheci o cara agora, há algumas horas atrás, hahahaha

− Po, pela maneira como vocês se comportaram, os olhares e tudo, achei que se conheciam de outro lugar e muito bem, hahahaha

− Parecia mesmo né?

− E qual o nome dele?

− Ih, hahahaha, não faço a mínima ideia.


Lá estava ele em frente ao espelho, colocando a fantasia de Índio, fazendo um balanço de três dias de carnaval, partindo para o quarto. Quase não lembrara da Pedrita do carnaval passado durante o ano. Ao chegar o carnaval, a lembrança e a vontade de encontrá-la tornaram-se peremptórios. Agora, no Bloco de Terça, ele tinha a grande esperança de vê-la novamente. Será que conseguiria? As poucas meninas que beijara neste carnaval, preferiu se divertir sozinho na maior parte do tempo, faziam-no lembrar dela. Um amor típico de carnaval?


Lá estava ela em frente ao espelho, colocando a fantasia de Fada, fazendo um balanço de três dias de carnaval, partindo para o quarto. Quase não lembrara do Pirata do carnaval passado durante o ano. Ao chegar o carnaval, a lembrança e a vontade de encontrá-lo cresciam em progressão geométrica. Agora, no Bloco de Terça, ela tinha esperança de vê-lo novamente. Será que conseguiria? Ela preferiu se divertir sozinha no carnaval daquele ano, rejeitando todos os que se aproximaram delicadamente. Nenhum era tão interessante quanto ele. Como ele não apareceu, ela ficou só. Um amor típico de carnaval?


O Bloco de Terça saía da praça religiosamente às nove da manhã. Índio e Fada olhavam para todos os lados tentando reconhecer o objeto do desejo carnavalesco. Ambos pensaram em usar a mesma fantasia passada. Não quiseram estragar a empolgação do grupo de amigos que combinavam sair com as mesmas fantasias, menos Patrícia como sempre.

Relaxaram ao não conseguir encontrar o outro. Deveriam se divertir, pois essa era a máxima do carnaval e deixar para as lembranças aquele dia tão bom do carnaval passado. Seria uma história como tantas outras a ser contada no futuro. Como o acaso, o destino, ou o que quer que seja que determine o que acontece no universo é completamente esquizofrênico, bipolar, ou outra doença mental qualquer que seja sinônimo de loucura ou bizarrice, viram-se lado a lado na primeira curva da rua quando o Bloco de Terça deixa a praça e começa seu percurso sinuoso. Riram um para o outro e se olharam com ternura. Os amigos de ambos já estavam um tanto dispersos se divertindo, pulando e cantando e flertando. Nenhum percebeu que eles haviam se encontrado novamente. Ficaram ali, parados se olhando e sorrindo. O beijo suave aconteceu. Desta vez, porém, ele se tornou mais impetuoso com o passar dos minutos. Um calor lhes subiu pelas colunas. A respiração se acelerou. Os dois pararam ligeiramente assustados. Nas suas lembranças, tudo havia sido doce e ingênuo. O que sentiam agora, sabiam o que era, estava além do que imaginavam.


− Vamos sair daqui? – ela disse com espanto, pois não foi consciente ou premeditado.

− Vamos... – disse ele desconcertado, queria aquilo mais do que qualquer coisa que pensara em sua vida, mesmo não tendo tido sequer um pensamento sobre aquilo com ela.


Saíram procurando um hotel perto dali. Ele conhecia um no bairro vizinho. Foram imediatamente. Não avisaram ninguém. Em minutos estavam lá. Ao chegar ao quarto, o celular dela toca. Patrícia está do outro lado desesperada:


− Onde você se meteu doida? Eu e as meninas estamos preocupadas...

− Não foi nada, eu de repente me senti mal e como não vi ninguém e não queria estragar o bloco de ninguém resolvi pegar um táxi e vir pra casa...

− Eu to indo praí...

− Não precisa meu amor. Foi só um mal-estar. Mais tarde a gente se vê. Manda uma mensagem dizendo pra onde vocês vão.

− Tem certeza? Olha lá hein...

− Pode deixar. Divirtam-se, beijos...

− Tá bom. Beijos.


Ela olhou para ele.


− Eu não acredito que menti pra ela... – sorriu envergonhada.

− Se você quiser ir embora...

− Não. É que eu e ela não temos segredos e é ela quem faz essas loucuras...

− Vou enviar uma mensagem pros meus amigos, daqui a pouco vão ligar...


Depois que cumpriu sua obrigação, desligou o celular e olhou pra ela. Entregaram-se como nunca haviam feito com ninguém antes. Era uma sensação que permeava os sentidos dos dois. Já haviam sentido prazer antes. Sabiam que todo primeiro encontro era um tanto sem jeito, não se conhece bem o outro, se sente prazer e pronto, às vezes nem isso para a mulher. O que estavam vivendo estava além de suas experiências. Encaixavam-se perfeitamente, sabendo o que o outro queria. Ela, mais mística que ele, pensava que era um encontro cármico. Ele, mais cético que ela, pensava que era um encontro químico perfeito. Ele nunca havia tido uma atuação daquelas. Ela nunca havia agido daquela maneira. Quase não conversaram entre os intervalos. Quase não havia intervalos. Os dois não sabiam como agir depois. Ambos se assustaram. Ambos estavam extasiados. Tudo foi tão intenso que apenas o silêncio e a respiração acelerada era capaz de dizer tudo.

Despediram-se na porta do hotel. Ele esperou ela entrar no táxi. Beijaram-se, um sorriso e um adeus. Por mais que caia no ridículo, os dois, ela dentro do táxi e ele na calçada andando de volta para casa, depois de algum tempo, que não podia mais voltar, ao mesmo tempo pensaram: “Puta que pariu, esqueci de perguntar o nome de novo, merda não peguei nem o telefone...”


O Bloco de Terça saía da praça religiosamente às nove da manhã. Ele estava fantasiado de Operário. Tentava achá-la. Naquele ano que se passou, tentou as redes sociais, tentou encontrá-la de todas as maneiras que conhecia e não obteve sucesso. Não deixara de pensar nela. Seus amigos tentaram. Não que pudessem ajudá-lo muito nessa tarefa, mal a viram no primeiro ano, que dirá no segundo. Contudo, seu desespero era tão real e palpável que se entregaram à procura. O alvo deles talvez fosse mais fácil, todos se lembravam da amiga gostosa e tentaram achá-la através dela. Não conseguiram. Sem saber seus nomes, ou mesmo sem ter fotos delas, era bem complicado fazer qualquer tipo de procura.

O Bloco de Terça saiu e eles ainda ficaram um pouco ali parados, na esperança de encontrar rastro da Pedrita/Fada. Então ele a viu. Ela e as amigas estavam em volta de um carrinho de bebê, todas vestidas de babá. Desta vez até Patrícia. Seu coração rejubilou-se. Aquele ano fora torturante. Seus amigos ficaram aliviados por ele. Todos se dirigiram até elas. Ela o viu chegando e sorriu com certo constrangimento e receio. Ele não gostou muito da recepção, tão diferente dos anos anteriores. Ela olhou para o carrinho de bebê e se abaixou. Ao subir trazia em seu colo algo embrulhado que se mexia. Ele percebeu o que era, assim como seus amigos, e seu coração acelerou-se abruptamente. Uma vontade de fugir imediatamente dali se apoderou de seu cérebro. Foi chegando perto e ela tirou o lençol que cobria a cabeça da criança. Era um bebê pequeno com meses de idade. Apesar do calor que fazia, o tempo estava um pouco nublado e ventava, razão pela qual ele achou lógico o lençol que cobria uma criança tão pequena, mesmo não entendendo muito de bebês. Ela passou a criança para o colo de Patrícia enquanto ele se aproximava com um frio na espinha.


− Tudo bom?

− Tudo bem...

− Olha só: deixa eu falar até o fim e depois você diz alguma coisa tá bom?


Ele fez que sim com a cabeça, aparvalhado.


− Não estou te cobrando nada e nem sei como aconteceu, nós tomamos cuidado, mas aquele dia foi tão mágico que não sei o que dizer. Este é seu filho. Fique à vontade se quiser fazer um teste de DNA ou se não quiser fazer nada, virar as costas e ir embora. Só acho uma puta sacanagem você nem saber que tem um filho... Mesmo que nada aconteça mais entre nós ou que você resolva ir embora, pelo menos você sabe. Eu me sentiria muito culpada. Seria uma atitude egoísta de minha parte. Eu podia ter dado outra solução. Não quis. Com relação à pensão, essas coisas de legislação sabe: eu não quero nada. Minha família não é rica, mas dá pra cuidar de mais uma boca. Eu só achei que você devia saber. Te procurei pela internet que nem uma doida e não consegui te encontrar. Então vieram os enjôos e minha gravidez foi complicada, tive que ficar de repouso absoluto no último mês, então... desculpe tô nervosa, por isso falando tão rápido... Olha: sei que é seu porque não transei com ninguém depois de você e não transava há uns dois meses antes e o tempo de gestação sabe... mas entendo se você não acreditar e eu não to realmente te cobrando nada, mas você devia saber que tem um filho no mundo... Me desculpa... Eu ia ficar desesperada se não te encontrasse hoje.


Perplexo, ele olhava para ela. Escutou e entendeu cada sílaba, cada palavra.


− Bom... é... você não tem do que se desculpar, afinal essas coisas acontecem mesmo. Eu não sei realmente o que dizer. Também te procurei... – ela sorriu, ele também.

− Você quer conhecê-lo?

− Quero.


Foram todos para mais perto. Seus amigos tão perplexos quanto ele. Todos pensando na enrascada em que o amigo se metera. Ele pegou o filho no colo, meio sem jeito, com cuidado. Não há como não se enternecer com uma criatura tão frágil.


− Como é o nome dele?

− Daniel.

− Acho que você nem precisa fazer DNA. – disse um amigo que se aproximara.

− Por quê? – perguntaram todos.

− Olha o bracinho esquerdo dele.


Uma mancha avermelhada disforme de alguns centímetros era visível no antebraço esquerdo, na altura do pulso, quase chegando ao início da palma de sua mão.


− Caralho! – ele ajeita o filho no braço direito e mostra o braço esquerdo. Há uma mancha muito parecida no mesmo lugar. – Meu pai tem uma dessas também. Minha irmã não.


Todos riem nervosamente da coincidência genética.


− Mesmo assim, se você quiser, aliás, você deve fazer o teste de DNA pra ter certeza. Eu faço questão porque não quero parecer que estou te enganando...

− Claro, claro, mas, sabe, é... o que mais me incomoda e que acho ridículo e fico até sem graça de confessar é que até hoje eu não sei o seu nome.

− E nem eu o seu.


Todos riram mais uma vez, desta vez um riso mais relaxado.


− Prazer: Rafael.


As babás todas explodiram na gargalhada. Os operários não entenderam nada. Ela com um sorriso estampado no rosto, contendo uma gargalhada, responde:


− Prazer: Rafaela.


FIM

92 visualizações