• Juan Page

A PREMIAÇÃO


— O que estou fazendo aqui? Como conseguiram me convencer a vir? – sussurrava para si mesmo.


Por que havia concordado com aquilo? Nunca fizera concessões. Nunca. Sorria aos que lhe acenavam. Alguns eram amigos de longa data. Outros eram admiradores sinceros de seu trabalho. A maioria olhava para ele com estranheza. Contentes com sua capitulação, imbuídos de uma empáfia interior: até ele se rendeu. A idiotia transbordava no mundo! Muitos ali sonhavam ter seu sucesso. Muitos ali sonhavam serem respeitados como ele. A maioria não conseguiria. Entretanto, todos queriam o que ele desdenhava: o reconhecimento visual. Possuía o reconhecimento profissional. Nunca conhecera o fracasso. Não possuía o reconhecimento visual. Uma benção! A maior parte das pessoas não sabia quem ele era. Poucos o reconheciam.

Durante cinqüenta anos ficara longe destas cerimônias e dos holofotes. Como um iconoclasta convicto, evitara, de todas as formas, qualquer forma de idolatria. Ele cansara de explicar que sendo contra a idolatria, seria extremamente incoerente ele mesmo ser idolatrado, portanto, não alimentava o monstro da curiosidade alheia. Lógica pura e simples. Não se interessava pelo bônus da fama, muito menos pelo ônus. Não dava entrevistas de nenhum tipo. Nem a jornalistas amigos. Não comparecia às premiações nas quais era indicado. Os amigos que recebiam os prêmios por ele tinham quase que suplicar que ele os aceitasse. Muitos os deixavam em sua casa quando ele não se encontrava. Não dava autógrafos. Não tirava fotos. Seus livros, seus filmes e suas peças de teatro eram veiculados sem fotos suas.

A fama lhe era estranha. Seu pensamento era coerente com suas atitudes: como alguém poderia idolatrá-lo se era apenas um trabalhador? Só porque seu trabalho era criativo? Cheio de um glamour falso e egocêntrico? Ele iria dar entrevistas para falar de si mesmo? De seu trabalho? Dizer o quê? Como ele havia tido a ideia? Como ele era maravilhoso? Talentoso? Genial? Era um homem apenas! Como todos os outros. Não entendia como alguém podia achar que um ser humano merecesse ser adorado como um semideus com poderes especiais, apenas por ser um artista ou porque aparece para as mídias. Com a pulverização da celebrização banal da vida, tudo se tornara pior. Se só o fato de aparecer na grande mídia, sem ter nenhum atrativo ou talento, faz com que alguém seja visto como importante nestes dias modernos tão estranhos, ele queria cada vez mais distância dessa horrenda voracidade pela fama.

Torturara-se em pensamentos dissonantes, discordantes e discrepantes entre o comparecimento e o não-comparecimento. Só capitulara porque suas filhas o convenceram. Maldita Simone! Com aqueles olhos amendoados e cheios de água, insistindo que queria ser testemunha pelo menos uma vez na vida do pai recebendo um merecido prêmio em um palco, sendo ovacionado de pé. Ele nunca estivera em uma estréia de peça sua e nem de amigos. Nem de filmes. Nem de livros. Como somente começou a lançar romances, já consagrado como autor teatral e diretor de cinema, não precisou se submeter à vontade do editor de seus romances. Conferia certo charme a sua "não-presença" aos eventos. Isso é tão idiota que só fazia enraizar mais ainda suas convicções iconoclastas. Mais idiota ainda, é que essa atitude só fazia crescer a idolatria distante em torno de seu nome.

Pelo menos era distante! A mídia e os fãs que o reconheciam em público, não se aproximavam com medo de sua reação. Lendas surgiam sobre sua irascibilidade. Tão logo ele, que era de uma gentileza atroz, incapaz de um ato hostil sequer. As pessoas próximas não entendiam sua atitude. Sua atitude não combinava com sua personalidade branda e serena. Nunca gritara com um companheiro de trabalho. Se não entendiam sua visão a respeito de uma cena qualquer ou fala, ele não discutia: argumentava apenas. Seus argumentos finais nunca eram refutados, pois tinha uma paciência invejável. Nunca precisou usar o argumento definitivo: fui eu que escrevi, sou eu que estou dirigindo, então me obedeça! Por mais que os amigos e companheiros de trabalho desmentissem, essas lendas cresciam. Ele desconfiava da razão: nas poucas vezes em que fora abordado, desprezara quem o procurara e diante de alguma insistência, simplesmente fugia da pessoa, do local onde se encontravam. Se num bar ou restaurante, pedia a conta, pagava e saia. Se em outro ambiente, se ausentava. O desprezo e a fuga eram vistos como agressão grave, porque ele não exprimia uma única sentença. Não modificava sua fisionomia. Era como se mudo fosse ou como se a pessoa que o abordou não existisse. O desprezo fere mais profundamente que o destempero.

Como o estudante que escapa mentalmente da aula maçante, começou a divagar. Imagens de vários episódios de sua vida surgiam nítidos em sua mente. Tentou se controlar para não parecer alheio. Não conseguiu. Saber que estava ali para receber um prêmio por sua trajetória artística estimulara suas lembranças. Viu subir ao palco a apresentadora dos prêmios. Isso também pesara contra a aceitação: sabia que ele seria o último a ser chamado ao palco, tendo que ver e ouvir todos os premiados de melhor isso, melhor aquilo e escutar seus agradecimentos. Malditos olhos amendoados! Além disso, teria que ver trechos de suas obras, teria que presenciar performances de pedaços extirpados de seus trabalhos, tidos como geniais e totalmente fora de contexto. Isso seria uma tortura.

Gargalhava internamente. Vira quase todas as mulheres de sua vida ali. Antonia. Vera. Cilene. Dora. As mães de suas filhas: Beatriz, Isaura e Simone, malditos olhos... Como estavam todas velhas! Ele estaria assim também? Claro! O espelho tem fama de ser cruel, contudo, quem se olha sem prestar atenção aos detalhes, nem percebe que envelhece. O olhar diário acostuma a visão para a indiferença.


No dia seguinte, um amigo escreveu: “... deu-nos a derradeira lição: morreu sentado, recusando-se assim a subir ao palco. O sorriso não era um esgar do momento da morte e sim uma fiel alusão à sua fina ironia. Nunca fez concessões.”

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