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A formatura.

A delegacia de Angra dos Reis estava vazia, como soem ser as delegacias de cidades pequenas em épocas de baixa estação. Pelo menos em cidades turísticas como essa. Estava até frio naquele sábado de agosto. Mário se encontrava em frente ao delegado de plantão. Chegara por volta das seis da manhã, roto e maltrapilho. O sangue coagulado manchando-lhe a camisa do terno. Adriana já dispensada, aguardava-o na casa de praia que seus pais possuíam, estava medicada e já devia estar dormindo, se os calmantes já tivessem surtido efeito, do contrário, duvidava que ela o conseguisse naturalmente. Ele ainda não conseguira tal proeza, nem deitar, quanto mais tentar dormir.


— Muito bem, meu rapaz. Vamos começar desde o princípio, já que os corpos estavam realmente onde afirmaram o senhor e a senhorita... Deixa ver... – O delegado mexia nos papéis que estavam na mesa. – Adriana.

— O senhor tem certeza de que ela não precisa estar aqui?

— Claro. Ela está em estado de choque. Não seria uma boa testemunha agora. Um médico está na casa acompanhando-a. Já avisamos seus pais. Logo estarão aqui.

— Obrigado. É que não queremos ter nenhum problema depois...

— Pode ficar sossegado.

— Por onde começo?

— Pelo princípio se for possível, será seu depoimento oficial. Tem certeza de que não quer um advogado? Podemos esperar. Seu pai provavelmente trará um.

— Tenho. Somente me defendi. Adriana vai confirmar tudo. Parece um pesadelo kafkaniano ou uma história saída das páginas de Ionesco ou Becket...

— Vamos deixar de preciosismos e sejamos objetivos...

— Claro, claro! Desculpe-me... É que sou dado a intelectualidades...

— Não tem problema.

— Bem... Na sexta-feira...

Eram oito horas da noite. O auditório estava lotado de pais e familiares orgulhosos de seus rebentos formandos e prontos para entrar no mundo adulto. Lugar comum, mas ainda ontem eram crianças frágeis descobrindo o mundo, aos olhos daqueles que os viram nascer e acompanharam-lhes a vida. Hoje deixam definitivamente os cueiros e partem para uma nova etapa. Estava eufórico. Uma das poucas mulheres que haviam resistido ao meu charme em vinte e três anos de vida estava livre. Devo dizer que não é bem verdade que ela tenha resistido ao meu charme, a partir do momento em que nunca tentei uma aproximação mais efetiva e nem tentaria...

Começamos juntos na universidade. Sou um excelente aluno, sempre fui. Adriana, contudo, jogava por terra a teoria, comumente aceita, diga-se de passagem, de que mulher bonita é burra. Além de não ser somente bonita e sim linda... É, hum... Como direi... Gostosa é termo chulo, porém nenhum outro se encaixa melhor no caso. Ela é maravilhosa. Ela sim: era a melhor aluna do curso. Não me lembro, Doutor Delegado, dela ter obtido notas menores que nove ou de ter tido dificuldades com alguma matéria. Antes de entrarmos para o último período vários professores já a haviam sondado para que fizesse um mestrado, pois era realmente brilhante.

Nunca joguei meu charme porque uma das primeiras informações que obtivemos é que tinha um namorado há um ano e quando vimos o tamanho do sujeito perdemos qualquer vontade de tentar uma aproximação. O dito cujo, além disso, também era bem bonito. Pior: gente da melhor qualidade! Entrou naquele ano também, só que para fazer Engenharia. Os dois viviam juntos nos intervalos e se gostavam muito. Qualquer um percebia isso. Todos que olhavam para ela com olhares desejosos, porque sempre tem aqueles que não gostam de mulher, né? Nada contra, mas não havia um homem que não olhasse para ela e pensasse besteiras. Acho até que os afeminados, para ser politicamente correto, talvez seria melhor homossexuais, também está errado, bem, deixa pra lá, também admiravam sua beleza... Perdidas as esperanças, chegamos à conclusão que era muita mulher para nossas pretensões. Como se diz por aí: “muita areia pro meu caminhãozinho”, hehehe. Entretanto, nós ficamos amigos. Namorei algumas colegas suas, saímos em grupo várias vezes. No último período somente nos víamos em sala de aula. Os projetos finais tomavam nosso tempo, os estágios idem e a vida social entre a turma diminuiu um pouco. Um sacrifício que valeria a pena. Todos já estavam empregados e a vida seguia. Acabou o período e todos passaram muito bem. A turma toda saiu para comemorar numa beberagem vespertina e Adriana nos contou que iriam oficializar o noivado nas férias de julho. A colação de grau seria no final de agosto.


— Vem cá, meu caro... Essa historinha que o senhor está contando vai chegar em algum lugar que me interesse?

— Veja bem seu delegado: sou prolixo mesmo, mas o contexto é importante para o senhor entender como e por que Adriana estava comigo e para entender como aconteceu essa loucura toda conosco...

— Porra... Vê se chega logo no que nos interessa...


Na primeira quarta-feira do mês de agosto, aconteceu o ensaio da formatura. A comissão responsável entrou em contato com todos os formandos. Não haviam encontrado Adriana, que não compareceu. Todos estranharam tal comportamento, já que Adriana era conhecida pela sua dedicação e afeição ao cumprimento de compromissos. Não acreditei quando a vi na sexta-feira daquela mesma semana, quando houve um novo ensaio, ao qual compareceu. Estava abatida. Trocara aqueles lindos cabelos castanhos que lhe chegavam ao meio das costas, por fios que não deviam ter nem dez centímetros. Continuava maravilhosa, contudo, todos ficaram assustados com a mudança radical em tão pouco espaço de tempo.

Veio então a bomba: havia terminado o noivado com o bonitão. O que havia acontecido? Não queria falar sobre isso, para lhe dizer a verdade, delegado, até agora não sei o que aconteceu. Desconversamos. Disse que não viera ao ensaio anterior, por ser recente e ainda não estar recuperada, porém não podia deixar de vir e comparecer à formatura, para dar essa alegria aos familiares. Uma menina de ouro, delegado! Porém foi taxativa: não iria para a festa de jeito nenhum.

A formatura transcorreu chata como qualquer outra. Os discursos intermináveis. À minha revelia, votei contra o indivíduo, o orador da turma se estendia tecendo previsões a respeito do futuro e de como nós, agora Analistas de Sistemas, iríamos construí-lo. Eu só conseguia pensar em Adriana que se sentara longe de mim. Seus olhos estavam pensativos, longínquos. Sorte dela, já que parecia não escutar nenhuma daquelas baboseiras. Cada palavra ecoava na minha mente como uma tortura chinesa misturando-se à sua imagem. Não conseguia tirar os olhos dela nem deixar de escutar aquelas cretinices. No final, fomos em comissão tentar dissuadi-la da ideia de nos abandonar na comemoração. Não tinha cabeça para festas foi sua resposta. Veio-me uma inspiração súbita e disse: “Adriana, não importa o que houve entre vocês. Por mais que seja difícil, será que você merece sofrer dessa maneira? Deixar de aproveitar, não a festa, que isso é bobagem, mas o momento de compartilhar o que provavelmente será o último em que estaremos todos juntos, pois certamente agora cada um irá para um lado diferente e a vida vai nos afastar? A partir de agora nos encontraremos apenas na rua rapidamente, de vez em quando, congressos e alguns eventos e em alguns anos talvez nem isso.” As palavras parecem ter calado fundo nela, pois consegui meu intento. Ela já havia pagado todas as prestações e apanhado todos os convites a que tinha direito antes, pois havia decidido não ir à festa apenas há poucos dias atrás somente.

Que loucura foi a festa, Doutor Delegado! Fechamos uma boate no Rio. Somos uma turma pequena e não fizemos aquelas festas gigantes que acontecem hoje em dia. Cantamos. Bebemos. Dançamos. Eram duas horas da manhã e me vi frente a frente com minha deusa-musa. Ambos bêbados, ela muito mais, já que decidira esquecer sua decepção amorosa, pelo menos por algumas horas. Naquele tête-à-tête, tudo pareceu desaparecer. Som, pessoas, barulho. Seus olhos pretos marejados me hipnotizaram e estávamos nos beijando. Como aconteceu não sei, sinceramente. A iniciativa foi dela, ao que me pareceu. Ao mesmo tempo, descobri um antídoto contra a embriaguez infalível: um beijo inesperado de uma deusa e o álcool se evapora do seu sangue instantaneamente. Fomos para um canto escuro. Não conseguia distinguir o que fazia parte de meu corpo e o que era dela.

Fiz então uma proposta louca, alucinada: Angra. Para a casa dos meus pais. Ela não pestanejou. Saímos. Gosto de pegar a estrada Rio-Santos pela Barra da Tijuca. O tempo inteiro ela me agarrava. Estava excitadíssima. Dirigia perigosamente, e olha que eu a afastava. Quis parar em um motel. Ela recusou. Fiz um desvio para a praia de Grumari. Sei que é perigoso, não se sabe o que nos espera em ambientes isolados à noite, mas não estava agüentando mais. Descemos do carro. Ela correu para o mar tirando a roupa. Tive que respirar fundo. Quase tive uma síncope cardíaca diante daquela visão e o senhor sabe que isso na minha idade é morte certa. Tirei minhas roupas também. Para suavizar as coisas direi que fizemos amor loucamente. Começamos dentro d’água e terminamos na areia. Estava me aproveitando de uma bêbada? É verdade! Confesso canalhamente... Cheguei a pensar em levá-la para sua casa logo que entramos no carro. Meus escrúpulos foram para o inferno, era uma chance única.

Mais calmos, voltamos para o carro e para a estrada. Ela não fez menção de desistir. Fomos em frente. Houve um momento em que ela adormeceu ao meu lado. Em uma parte da estrada que não tem nada, nem um casebre, o pneu estourou. Por um triz não batemos. Controlei o carro com dificuldade e bem na hora. Aquela árvore que se aproximava não nos alcançou. Ela acordou toda assustada.

Fui trocar o miserável. Deu um trabalho cão! Uma parte do aro amassara, acho que foi quando passei por um buraco mais atrás e que não consegui desviar, com o tempo e o esforço o pneu estourou. Porém, com um martelo consegui arrancá-lo. O martelo é um vício paterno para o qual nunca havia atinado. Foi fundamental naquele momento. De repente um carro pára logo atrás e três homens saem de dentro dele. Eu estava terminando de apertar a última porca.

— Tá precisando de uma ajuda aí, companheiro? – disse o crioulo, ou talvez devesse dizer o afro-brasileiro? – Então eu disse tranquilamente.

— Agora não, acabei neste instante. Obrigado.

Sacaram as armas e pediram as chaves. Adriana saiu do carro e eles comeram-na com os olhos. O louro oxigenado se aproximou dela. Suei frio e entrei na frente dele. Com a arma apontada para mim, fez um movimento com o pulso para a direita indicando que saísse do seu caminho. Mantive-me firme. Para minha sorte o crioulo, que parecia ser o chefe, chamou-o.

— Não vamos fazer besteiras, mermão. Tamo com pressa, caralho...

Respirei aliviado.

— Vai pegar a corda no carro. – continuou e muito educadamente chamou-nos e completou:

— Desculpa aí, garotão. Ele é meio perturbado, mas a gente pode contar com ele na hora do barulho, sabe cumé qui é... Vamos amarrar vocês dentro do mato, frôxo, mas suficiente pra só conseguir se livrar daqui uns quinze, vinte minutos. Beleza?

— Porque dentro do mato? – perguntei estupidamente.

— Para que não vejam pra onde a gente vai e se atrasem um pouco nos dando uma distância boa. Vamos levar o seu carro. – enfatizou o “seu”.

Depois de meia hora mais ou menos, conseguimos nos soltar. Levaram o carro deles também. Mais adiante, com certeza o abandonariam. Adriana chorava compulsivamente. Consolei-a dizendo que tivéramos sorte, principalmente ela, pois as intenções estupradoras do lourão eram claras. Isso fez com que se acalmasse. Achei melhor continuar andando em direção à Angra, afinal estávamos a apenas vinte minutos daqui de carro, uma hora pelo menos a pé, mais ou menos.

Uns dez minutos de caminhada e vimos o casebre. Resolvemos ir até lá pedir ajuda. Nem um carro, ônibus ou caminhão havia passado pela estrada, o que estranhei bastante. Aproximamo-nos e vimos um vulto na frente. Gritei chamando-o e ele correu fugindo. Entramos no casebre e a cena foi aquela que já descrevi: sangue por todos os lados. Os corpos estavam mutilados e nus. A mulher sem cabeça e o homem com o abdome todo aberto. Vomitamos instantaneamente. Adriana tremia e gritava assustada. Saímos correndo sem olhar para trás. Um horror! A velocidade imprimida nos fez parar logo na estrada. Caímos arfando, exaustos. Adriana ainda chorava. Abracei-a. Estava apavorado também. O calor de seu corpo me acalmou um pouco. Senti-me protegido.

Foi nesse momento, quando estávamos nos acalmando, que o sujeito saiu do mato gritando com a peixeira posta à frente. Gritamos de volta. Sempre fui um desportista. Fiz três anos de judô quando criança e na adolescência fiz seis meses de caratê, outros tantos de capoeira, mais um ano de taiquendô, enfim possuo uma noção de defesa pessoal. Tudo isso junto com o desespero e o medo da morte me transformaram no próprio lutador de UFC. Pulei para o lado colocando-me em posição de defesa. Dei ordens para que Adriana corresse ao que fui atendido prontamente.

Ele atacou. Senti, pela minha visão lateral, que Adriana havia voltado. Eu me esquivava como podia de suas estocadas. Não tive uma diarréia porque meu aparelho excretor não funcionava. A saída estava obstruída. A dor de barriga era impressionante. Adriana jogava pedras nele. Pedras pequenas, ele nem sentiria se o acertassem. Gritei para que fosse embora. Ela disse que não iria me abandonar. O indivíduo virou-se para ela e atacou. Fui atrás dele e pulei nas suas costas. Segurei o braço que estava com o facão. Girava o corpo tentando me jogar no chão. Empurrei-o para a direção do barranco do outro lado da estrada.

Não consegui chegar até lá. No meio da estrada ele se desvencilhou. Caído no asfalto esperava apenas o golpe fatal. Adriana lançou-se sobre ele e o deslocou. Levantei e o ataquei. Chutava seu corpo caído com todas as forças que me restavam. Em vão tentava me atingir, pois pulava de um lado para outro em torno dele. Finalmente ele conseguiu cortar minha calça. Saltei para trás e ele se levantou. Percebia-se que estava muito cansado. Hesitávamos. Atacou-me com força novamente. Desviei o corpo e dei-lhe uma rasteira. Caiu por cima do facão e gritou. Estremeci e parei, esperando outro ataque ou que algo acontecesse. Quando levantou, o facão estava atravessado em seu braço. Olhamo-nos paralisados. Ele retirou o facão do braço berrando como um alucinado e o sangue jorrando. Dei-lhe um daqueles pontapés com a perna girando, com uma perfeição que nunca consegui nas aulas citadas. Caiu e não levantou. Alguns minutos de espera e fui até ele. Seus olhos estavam abertos. Vidrados, encarando o vazio. Formava-se uma poça de sangue lentamente ao redor. A cabeça bateu numa pedra pontiaguda que saía do barranco do acostamento. Matei um homem, Doutor... Matei um ser humano... Acho que vou vomitar novamente, Doutor...

— Tem certeza?


Depois de longo silêncio em que respeitosamente esperou o depoente se recuperar, respirando profunda e pausadamente o delegado perguntou:


— E então?

— Bem, delegado, estávamos os dois abraçados, chorando convulsivamente, devemos ter perdido uns dez litros de água esta noite, entre suor e lágrimas, quando um carro aproximou-se e parou. Não perceberam o corpo no princípio, se tivessem visto talvez não parassem. Deram-nos uma carona até aqui, depois de uma rápida explicação e o pedido para virmos até a delegacia...


O telefone tocou. O delegado atendeu. Desligou depois de longos minutos de conversa. Fez outra chamada logo depois, também demorada. Ao desligar olhou para ele:

— Já acreditava na sua história. – fez uma pausa – Ela é tão absurda que só pode ser verdade. Nem que você fosse Shakespeare, inventaria algo assim. O casal que lhes deu carona disse exatamente isso que o senhor nos contou sobre a participação deles: apenas uma carona e que não viram corpo nenhum e nem sangue no senhor inicialmente. Confessaram que se vissem talvez não parassem. Acredito mais ainda agora. Era a delegacia de Parati no telefone. Acabam de nos avisar que seu carro foi encontrado lá. Os suspeitos confessaram o roubo. O rapaz louro estava morto no banco de trás. Parece que era um pouco louco mesmo, queria voltar de qualquer maneira para casar com a mulher dos seus sonhos. Insistiu tanto que deu briga dentro do carro e acabaram dando um tiro nele. Estavam fugindo de um assalto a um posto de gasolina no subúrbio do Rio de Janeiro que deu errado.

— E sobre o que aconteceu no casebre?

— Meus policiais me informaram já. O filho da mulher decapitada chegou de manhã cedo. Foi buscar umas coisas na casa da mãe. Ia viajar com a esposa e a mãe queria que levasse algo para parentes. Viu a polícia e reconheceu os corpos como sendo de sua mãe e do marido dela. Não o chamava de padrasto, mas gostava dele, se davam bem. Estava há cinco anos com a mãe. Pedimos para que fosse ver o corpo na estrada. Reconheceu o pai desaparecido. Quando tinha quinze anos o pai sumiu do mundo sem deixar vestígios. Ele já está com vinte e sete. Acreditamos que houve um caso passional, mas não somos adivinhos. Vamos ver se conseguimos alguma coisa sobre os antecedentes dele. O facão com que o atacou, corresponde aos cortes dos corpos, segundo a perícia preliminar. Acho que nunca vamos saber o que aconteceu. Não há testemunhas. Ninguém viu o pai chegar. O vizinho mais próximo está a quinhentos metros, no mínimo. Essa história vai assombrar a região por muitos e muitos anos.


Ela gritava gozando. Cavalgando-o em ritmo alucinado, caiu prostrada por cima dele. Um sorriso de felicidade extrema abria-se. Duas semanas depois da loucura e se amavam perdidamente procurando celebrar a importância da vida que a aventura inesperada lhes mostrara. Apesar do ar condicionado ligado, suavam vastamente. Beijaram-se e ela desceu de seu corpo. Deitou-se ao seu lado e aninhou-se em seu ombro. Olhou para o teto espelhado do motel e sentiu o ar entrando em seus pulmões.


— Vamos casar? – disse Mário.

— Tá maluco?

— Não. Nós já nos conhecemos há muito tempo.

— Relacionamentos são bem diferentes.

— Eu sei, mas depois do que passamos, é como se o destino nos tivesse colocado diante de uma experiência única. Somente nós conseguiríamos entender o que sentimos...

— Eu também penso assim. Nossa... Parece que estou contigo há anos... Vamos fazer um trato: ficamos noivos e marcamos o casamento pra daqui, sei lá, um ano talvez, certo?

— Fechado.

— Você gosta de cachorro?

— Gosto, adoro, mas porque a pergunta tão fora de propósito?

— Promete que nunca vamos ter um?

— Prometo, se você me disser a razão. Eu sei que você gosta e até tem um.

— Tinha. Dei para o Vinícius.

— O bonitão?

— Ele mesmo.

— Você adorava aquele cachorro.

— Ele gostava muito mais...

— Como assim?


Depois de longo silêncio:


— Promete que não vai contar pra ninguém? Ninguém sabe. Eu não contei. Nem aos meus pais. Nem aos dele... – ela agora estava com o olhar longínquo, triste. — Ninguém ainda entendeu porque terminamos tão abruptamente e nem nos falamos desde então...

— Nem nós. Mas eu prometo que serei um túmulo. Foi outra, né?

— Nós terminamos porque peguei os dois transando no jardim lá de casa...

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