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8 - PROLOGO - LAURINDO CAMPOS (Continuação)

Não se interessava por meninas. E nem por meninos se é o que está pensando. Sem preconceitos. É aqui que acredito que esteja um de seus grandes problemas: isso não é normal. Definitivamente. Não há necessidade de ser tarado. Os garotos normalmente o são. Culpa dos hormônios em excesso aflorando repentinamente, quaisquer nesgas de peitos ou bundas, os deixam excitados. Como as pessoas são diferentes, sabemos que para uns o sexo é mais premente do que para outros. Uns despertam mais cedo que outros. Não ter interesse real nenhum? Nem para um lado ou para o outro? Nem ao menos pensar mais detalhadamente nisso chegou a fazer. Ele deve ter problemas hormonais. Se fizer exames específicos isso vai ser percebido, tenho quase certeza. Palpite apenas, evidentemente. Que explicaria muita coisa. Olha para mulheres bonitas, e para homens bonitos também, percebe a beleza e as particularidades dela em cada exemplar da espécie, todavia não os deseja, seu olhar é detalhista e frio como se visse uma paisagem bonita ou uma obra de arte da qual gostasse, porém que não o deslumbrasse ao ponto de se apaixonar. Creio até que já viu obras de arte que chamaram mais sua atenção do que pessoas. Não tem a voracidade do sexo no olhar. Pode ter suprimido isso por algum motivo e o problema ser apenas psicológico. Se for isso, o problema é bem mais sério. E antes que venha algum chato politicamente correto dizer que a assexualidade não é um problema e sim uma escolha, um gênero e tal, existe uma associação dos assexuados em vários locais do mundo, repito: assim como considero a voracidade sexual em excesso um problema, considero a falta de apetite sexual também. É natural o desejo e até mesmo a pulsão animal instintiva que nos leva à procriação. Os seres humanos são animais, do filo chordata, da classe dos mamíferos e da ordem dos primatas, apesar de não considerarmos esse fato. Dito isto, encerro esse assunto.

Uma de suas paixões, além da literatura e da música, é o cinema. Conhece profundamente a cinematografia mundial: americana, europeia, asiática, latina, enfim, tudo. Tem catálogos e livros sobre o assunto. Gosta até de filmes sem conteúdo, desde comédias românticas bobas até os chamados arrasa-quarteirão, muita ação, efeitos especiais e mais nada além disso, desde que bem filmados. Não gosta de filmes idiotas, pobres de roteiro, de atuação dos atores precária, etc. De filmes eróticos não gosta. Gosta de literatura erótica. Contradição? Não. Quando se masturba, sim ele o faz, não com o mesmo ímpeto dos demais seres humanos, é sob a influência desse tipo de literatura, porém nunca teve curiosidade de conhecer uma mulher na realidade, de perceber o calor entre suas pernas, o sabor de uma boca. Nem de conhecer homens, e já leu literatura homoerótica, que também o excitou. Pareceu-me mais excitado com as palavras e os sentidos que afloram na leitura ao ato descrito em si. Mesmo um monge, padre, um religioso que fez voto de castidade, seja de que religião for, pensa em sexo e tenta dominar a vontade e esse desejo vai diminuindo com o tempo. Ou não, porém tenta.

O mundo vive do sexo. O sexo está em toda parte. Somos apenas animais buscando a procriação. Freud. Todas as nossas ações são voltadas para o sexo: a carreira, o trabalho, a acumulação de capitais, verdadeiramente tudo. Pensamos em sexo, mesmo que inconscientemente, o tempo em que ficamos acordados e enquanto estamos dormindo também. Considera uma afirmação forte demais? Pode ser, pois existem vários interesses nossos dentro do trabalho e da nossa vida que não nos fazem pensar em sexo propriamente dito, no ato sexual cru quero dizer, porém indiretamente sim, pois é baseado em nosso sucesso financeiro, social, pessoal, que conseguimos melhores parceiros, logo estamos mais aptos à procriação. Darwin. Somos animais afinal de contas, reitero. Iluda-se do modo que quiser se não concorda, só não fique chateado e deixe de ler esta história. Afinal, opinião é apenas isso: a verbalização de ideias, conceitos e cada um tem o direito de tê-las, inclusive um mero narrador fajuto.

Voltemos a Laurindo. Exagero do pai quando se referiu à musicalidade do filho? Não. Ele realmente é um músico excelente. Toca violão maravilhosamente, poderia ser um profissional, e outros instrumentos de corda, não como o violão, contudo pode ser considerado muito bom no violino, violoncelo, contrabaixo, cavaquinho, bandolim e guitarra (muito bem também). Toca teclado e sanfona de todos os tipos, preferindo a de oitenta baixos. Instrumentos de percussão também, sendo que na bateria é melhor que alguns, ditos profissionais, que vemos fazendo sucesso. Instrumentos de sopro ele gosta muito, porém não são sua especialidade. Diria que faz o básico no sax, na flauta e na gaita. Como nos teclados há todo tipo de sons que se podem reproduzir, não sente falta de não conhecê-los profundamente. Conhece teoria musical, arranjo, composição. Este é um capítulo à parte, pois tem várias músicas compostas. Sim. E nunca as mostrou a ninguém. Minto. Todavia, não disse que eram suas e nem foi ele quem as apresentou. Bem foi ele, mas... É meio complicado explicar agora, deixemos as explicações para depois.

Seu avô tinha uma ligação especial com ele e era a música. Grande boêmio, desde cedo conheceu músicos, artistas e foi amigo íntimo de vários deles. José Bento de Oliveira Coelho veio muito cedo de navio para o Brasil, acompanhando os pais, tanto que não possuía sotaque, contudo era português. Ele e os dois irmãos herdaram um bar no centro da cidade, já famoso pela excelente comida. Ele era o mais velho dentre os irmãos e o mais apto para os negócios. Logo comprou um restaurante. Uma oficina veio depois. Uma loja de roupas masculinas e depois uma de roupas femininas. Uma loja de material elétrico. Sim, ele já diversificava negócios naquela época. Eu disse que ele era bom. Amealhou fortuna considerável, tanto que deixou uma excelente herança para suas três filhas e fez questão de deixar um apartamento para cada um dos dez netos e uma pequena quantia em dinheiro. Seu principal defeito era ser um renomado mulherengo e boêmio. O que, convenhamos, não combinava muito com sua verve empresarial. Era um farrista convicto. Sua esposa sofreu bastante com as histórias das noitadas e amantes.

Naquela época resignavam-se mais as mulheres e Dona Maria de Lourdes mais ainda, pois José Bento saía de casa quando ela começava a reclamar sem a menor cerimônia. Deixava-a falando sozinha. Não discutia. Não brigava. Voltava no dia seguinte e se ela dissesse algo, saía novamente. Os irmãos e os pais recriminavam-no e ele não se importava. De hipócrita é que não o podiam chamar. Nada faltava em casa, materialmente e nem nas suas, digamos, obrigações de marido, pois seu apetite sexual era incrível. Depois de alguns anos, Dona Maria de Lourdes simplesmente desistiu. Fingia que José Bento havia parado com as mulheres. Com as farras não havia jeito, pois chegava sempre tarde em casa. Mesmo assim, nunca em sua vida, José Bento deixou de trabalhar e ganhar dinheiro. Controlava todos os seus negócios de perto, nada escapava à sua atenção. Todos os que o conheciam, criam piamente em sua morte prematura, pois não aguentaria aquela rotina pesada e nem entendiam como ele conseguia. Não tinha hora para dormir. Se estivesse com sono, dormia no escritório por meia hora e já estava refeito. Sua força era impressionante! Prova disso: só veio a falecer aos 82 anos de idade. Laurindo tinha 22 anos.

José Bento não era homem de se deixar enganar facilmente, mesmo levando a vida de boêmio, controlava seus negócios e, principalmente, a vida de suas filhas. Como não possuía filho homem, a quem legar as rédeas da casa e dos negócios, como pensavam os antigos, prestava muita atenção nos namorados e pretendentes das filhas. Sabia por experiência de vida, que suas filhas solidarizavam-se com sua mãe, apesar de lhe terem carinho e apreço, pois era um homem cativante, bom pai e carinhoso. Compreendia que a tendência de suas filhas seria procurar pretendentes que lhe fossem díspares em caráter e personalidade, para evitar o sofrimento que viram na mãe. Sabia que adultas, elas o criticariam e até teriam certa animosidade contra ele. Serem diferentes, mais responsáveis na relação com elas, não era garantia que os pretendentes fossem trabalhadores nem que tivessem faro para os negócios. Colocava-os à prova. Conversava com eles sobre negócios, conhecimentos de economia: José Bento lia muito, jornais e revistas, buscava sempre estar atualizado e atento. Era profundo conhecedor de aplicações financeiras, que não eram sua principal forma de ampliar fortuna, porém utilizava-as como impulsionador das finanças de seus negócios, como todo bom empresário.

Se não percebesse aptidão nos pretendentes de suas filhas, minava os encontros e a relação delas. Com sutileza e esperteza. Ele não podia ser acintosamente contra o pretendente. Até mesmo se fosse um profissional liberal e que não tivesse aptidão para empresário, procurava perceber as características que sabia serem próprias daqueles que eram ou seriam bem-sucedidos. Orgulhava-se de nunca ter feito uma previsão errada sobre esse assunto. Exceto talvez com Laurindo. Provava essa aptidão com Antonio, pai de Laurindo e marido de sua filha do meio: o detestava. Era uma antipatia natural e recíproca, logo exposta claramente para a filha. Todavia, logo após a primeira conversa com o então pretendente teve as melhores impressões naquilo que achava mais importante: a visão que fazia sobre o futuro promissor ou não do rapaz. Parecera-lhe um rapaz brilhante para ganhar dinheiro. Um idiota presunçoso, sem atrativo viril nenhum, na sua concepção, que seria rico sem muita ajuda. Normalmente, fazia essas afirmações depois de algum tempo e de algumas conversas e observações. Com Antonio não precisou. Não fez objeção ao namoro e muito menos ao casamento. Aturava aquele ser detestável, em suas próprias palavras, ditas à família apenas, pois se ele faltasse algum dia, aquele idiota sustentaria a todos. Não foi necessário. Sua profecia, entretanto, estava correta: Antonio era competentíssimo em todos os seus negócios. Erguera uma empresa de engenharia de médio porte. Nunca lhe faltaram obras e possuía um faro extraordinário para compra de terrenos, onde erguia pequenos edifícios ou casas e as revendia. Em algumas localidades, construiu pequenos aglomerados de lojas e as alugava. O próprio José Bento entrou em vários negócios como sócio, prova de que sabia separar seus gostos pessoais de seus negócios, como todo bom empresário.

José Bento respeitava Laurindo e sua mudez, como dizia. Apelidou o neto de mudinho. Foi José Bento quem comprou, a pedido, o primeiro violão de Laurindo. Aos dez anos foi até o avô e disse que queria aprender a tocar o instrumento. José Bento perguntou se queria um professor. Laurindo disse que não. José Bento sorriu e não perguntou mais nada. Laurindo achava graça no avô. Intrigavam-no aquela vontade de viver, aquela alegria, que muitas vezes achou imbecil. Filosofia demais na cabeça, creio eu. Sim, Laurindo achava seu avô um tanto imbecil ou idiota na sua felicidade. Apreciava seu gosto genuíno pela música. José Bento sabia da opinião de seu neto preferido. Laurindo o disse textualmente. José Bento achava graça no enfado que a vida produzia em seu neto. Parecia ter uma pena profunda dele e de sua incapacidade e falta de talento para desfrutá-la. E nesse relacionamento estranho, o mínimo que se pode dizer dele, em que um tem pena do outro e o outro desdenha do um, o que os ligava era a música. Para os dois ela tinha um aspecto solene e sagrado.

Laurindo tinha profunda admiração pelo conhecimento musical de seu avô. Ele o apresentou aos grandes do jazz: Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, John Coltrane, Miles Davis, Charlie Parker e tantos outros. Ele o apresentou aos grandes do samba, choro, à música popular brasileira: Noel Rosa, Pixinguinha, Cartola, Jacob do Bandolim, Jackson do Pandeiro, Luís Gonzaga, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Ismael Silva, Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros. Ele o apresentou à música clássica: Beethoven, Chopin, Strauss, Wagner. Enfim, foi quem iniciou a sua educação musical assim que percebeu no neto o gosto genuíno pela música e a habilidade apresentada quando começou a aprender a tocar violão. José Bento gostava das novidades contemporâneas trazidas pelo neto. Não tinha preconceitos com relação à música. Com exceção de roque pesado, gostava de muita coisa que o neto mostrava. Levou Laurindo para vários encontros da velha guarda das mais tradicionais escolas de samba que conhecia. Saíram muitas vezes juntos para irem a shows dos mais variados ritmos. José Bento arrastava Laurindo para as noitadas posteriores, e a postura de Laurindo não mudava. Limitava-se a sorrir, era a única concessão que fazia ao avô. Tocava em rodas de samba, cantava, contudo, nunca procurava intimidade com os amigos do avô. Tratava-os com respeito e com certa distância. Havia apenas um senhor que ia com a companheira, com o qual conversava mais detidamente. Não era sempre que o casal comparecia, contudo, quando acontecia, nos intervalos Laurindo gostava de conversar com ele. Era um homem viajado, culto e também mais avesso aos aglomerados como Laurindo. Sempre conversavam nos intervalos do lado de fora dos estabelecimentos onde se encontravam.

José Bento chegou a pagar prostitutas para se insinuarem para o neto, que nunca se deixou enganar, nem mesmo para deixar o avô contente. José Bento orgulhava-se do sucesso que o neto fazia como músico. Chegou a perguntar e tentar estimular uma possível carreira. Por sua causa, Laurindo foi convidado para tocar com vários sambistas. Vários deles admiravam seu talento e conhecimento. Sempre recusou. José Bento ficava triste e sem entender o desperdício de talento. Externou essa opinião apenas uma vez e não foi para ele. Respeitava o neto. Era o único que não queria mudá-lo ou influenciá-lo dentro da família.

Com a morte de José Bento, a parte mais alegre da vida de Laurindo, até então, se foi. Ele rapidamente se adaptou e nem pareceu sentir muita falta. Agora ia sozinho aos shows. Assim que terminou o inventário do espólio de José Bento, mudou-se para o apartamento que o avô deixara para ele no Bairro de Fátima, no centro do Rio de Janeiro. Um apartamento de dois quartos, amplo, de manutenção barata, uma antiga garçonnière de José Bento.

Ganhava um bom salário na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, alguns de seus colegas sustentavam famílias com ele. Como morava só e ainda possuía o dinheiro que o avô havia lhe deixado de herança em aplicações financeiras, nunca passou dificuldades para se sustentar. Não trocou a mobília. Montou um pequeno estúdio em um dos quartos, com direito a isolamento acústico e equipamento de primeira qualidade. Quando estava em casa, era nele que passava a maior parte do tempo. Era ali que lia, que trabalhava em suas composições, que tocava, que ouvia música. Possuía vários instrumentos musicais, uma mesa de 16 canais, substituída mais tarde por um computador de última geração com sistema de gravação digital. Esquecia-se do mundo, o que para ele não era tão difícil assim.

Ninguém de sua família havia entrado naquele apartamento desde que se mudara. Minto: os filhos de Helena uma vez foram dormir lá. Ela e o marido precisaram ir a um casamento e seus pais estavam na Europa, e os pais do marido dela tinham ido viajar também, e como um dos filhos de Roberto estava muito doente, ele não pôde ficar com os sobrinhos. Depois todos perguntaram para as crianças, curiosíssimos, como era o apartamento. Com a ingenuidade própria das crianças, não se estenderam muito no assunto, dizendo que era normal, velho, e que gostaram muito do “quarto da música”. “Tio Lau até gravou a gente cantando e vai nos dar um CD!”.

Laurindo via a família apenas nos almoços de domingo, aos quais comparecia religiosamente, para que não o perturbassem com perguntas ou pior: para que não telefonassem ou fossem até seu apartamento. A mãe cobrou uma visita ao reduto do filho várias vezes. Sem dizer não, desconversou sempre e Dona Amália, conhecendo o filho que tinha, rendeu-se e nunca mais tocou no assunto.

(CONTINUA)

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