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8 - PRÓLOGO - VALÉRIA MENEZES

Valéria Menezes nasceu Alberto Menezes Siqueira. Descobriu-se artista antes de homossexual, aos 12 anos de idade, e resolveu sair de casa no interior de Minas Gerais e ganhar o mundo. A coragem o tirou da miséria, nada podia ser pior do que aquela vida. Filho de camponeses pobres veio para o Rio de Janeiro semianalfabeto e trabalhou em muitos lugares e fez muitas coisas diferentes. Aos 16, morando sozinho, ousado e inteligente, autodidata, descobriu-se homossexual. Já namorara mulheres. Prostitutas? Já as conhecera intimamente. Chegou à conclusão de que gostava de homens. Sentia-se atraído por eles desde cedo. Reprimiu isso diante do que lhe foi ensinado na casa paterna. Garoto sensível, bonito e delicado, começou a se prostituir. Não gostou, contudo, o dinheiro era melhor do que aquele que conseguia em outros trabalhos. Alguns escrúpulos encaram a pobreza e perdem.

Iniciou sua transformação como mulher cedo, muito mais para começar a trabalhar nas boates do centro do Rio de Janeiro a preferência pessoal. Acabou gostando de ser uma quase mulher, como alguns chamam a si mesmos. Nunca pensou em próteses ou mesmo em mudança radical de sexo. O corpo esguio facilitava essa inclinação. Gostava das roupas e do universo feminino: maquiagens, sapatos, vestidos, penteados. De descendência indígena, tinha cabelos lindos, negros, lustrosos e lisos. O sonho de muitas mulheres. Muito bem educado, cordato e ávido por cultura, logo se destacou nos shows da boate. Perspicaz misturava humor, poesia, música e dança em uma apresentação escrita por ele. Aos poucos foi deixando a prostituição e se tornando um artista mais completo. Começou a dirigir suas colegas em seus shows. Escrevia de acordo com o que acreditava ser o forte de cada uma: Odete cantava melhor que as outras, então enfatizava seu lado musical; Waleska era uma piadista nata, então escrevia situações engraçadas, o que não era seu forte, apenas dava corpo às ideias da própria; Jeane era ótima atriz, então compunha personagens em esquetes para ela. Todas cantavam e dançavam. Aos poucos foi ampliando suas aptidões.

Foi chamada pelo dono da boate para gerenciar o espaço artisticamente e logo a qualidade dos espetáculos cresceu bastante, elevando o status do estabelecimento e Valéria foi convidada para ir à Europa, mais especificamente Paris, no rastro do sucesso dos Dzi Croquettes na cidade luz, sem alcançar o mesmo fascínio, sendo respeitada pelo potencial artístico e pela qualidade do espetáculo. As meninas voltaram para o Brasil, enquanto Valéria ficou e trabalhou como diretora e roteirista de espetáculos de transexuais, ampliando seu leque mais tarde para espetáculos alternativos e de vanguarda, intelectualizados. Era o final da década de 1970 e início dos anos de 1980, e a crise econômica no Brasil aumentava e Valéria foi ficando pela Europa.

A AIDS se impôs avassaladoramente nos redutos homossexuais e Valéria se contentava com uma leve abstinência, escolhendo seus parceiros, sempre usando preservativos. Queria achar um grande amor. Estava cansada da vida promíscua. Sempre foi romântica.

Valéria já vivia há mais de seis anos em Paris. Fez alguns trabalhos em Londres, Amsterdã e Berlim. Em 1983 aconteceu mais uma grande virada em sua vida, nunca se imaginara na Europa, tendo saído dos grotões da Zona da Mata Mineira, todavia, não se via mais voltando ao Brasil para viver. Conheceu naquele ano, Germano Garcia Meirelles, um advogado de renome no Brasil e em círculos europeus, sua especialidade era Direito Comercial Internacional e viajava constantemente pelo mundo.

Germano era casado e pai de três filhos, vivia num mundo de mentiras, como acontece tantas vezes. Descobriu-se homossexual muito cedo. Filho mais velho de uma família tradicional carioca, muito religiosa, e com grande talento continuou a saga da família na advocacia. Amava sinceramente a esposa, Aída Cardoso de Alcântara. Amava a pessoa que ela era, amava conversar com ela, viver com ela. Era difícil alguém não gostar de Aída. Uma mulher sensível, inteligente e bonita. Dedicava sua vida às causas sociais desde jovem. Era uma ativista muito antes de se tornar moda e sem cunho político ou religioso. Aída sabia das preferências do marido, pois além de tudo eram amigos confidentes. Não se separava por amá-lo imensamente, por saber que ele não poderia assumir seu lado verdadeiro, pelos filhos e pelo sexo. Sim eles faziam sexo. Germano gostava de fazer sexo com ela. Sabia do sentimento dela para com ele e se lamentava sinceramente por não poder retribuí-lo. Não se considerava um bissexual. Se fosse com outra mulher seria um sexo de mentira, por pura obrigação matrimonial e para esconder sua situação, já que nunca teria coragem de se abrir com uma mulher que não fosse Aída. Ele acreditava que só amaria Aída e que nenhum homem seria capaz de amá-lo como ela o amava, e que nem ele seria capaz de amar outro homem. Ele gostava do sexo com outro homem. Nunca se apaixonara por um. Assim vivia feliz e conseguia satisfazer seu apetite por homens quando viajava ou com travestis e garotos de programa. Até conhecer Valéria, seu mundo era o melhor dos mundos: uma mulher amiga que o amava, que o escorava e compreendia e ainda lhe proporcionava uma família e qualquer possibilidade de escândalo longe de sua vida.

Iniciaram o romance em Genebra, onde Valéria viajava com um espetáculo. Nenhum dos dois pretendia nada no início. Apenas sexo. Fora uma atração avassaladora. Como as histórias da vida são cheias de imprevistos, em uma semana estavam completa e perdidamente apaixonados. Valéria teve que voltar para Paris. Germano concluiu seus negócios em Genebra e voou para Paris. Esticou em um mês sua estadia na Europa. Valéria que já pensava em nunca mais voltar ao Brasil, foi convencida facilmente por Germano. Eles abririam ou comprariam uma boate e ela trabalharia lá. Seriam amantes e tudo ficaria bem.

Nem tudo sai como planejamos. Os caminhos que vamos construindo aos poucos, sem que tenhamos consciência deles, vão trazendo novas possibilidades e desvios de rota. No início conseguiram cumprir o que haviam combinado. O dinheiro que usaram para montar a boate era quase todo de Valéria. Germano entrara com apoio jurídico e logístico e algum dinheiro inicial para o pagamento de fornecedores e iniciar o negócio. Valéria dirigia-o muito bem e em pouco tempo a boate se tornou referência na Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro.

Germano não suportava mais ficar longe de Valéria. Ela conversava com ele e o fazia perceber que era loucura ele abandonar tudo, os filhos, a mulher, a carreira. Ela compreendia perfeitamente o que acontecia no mundo, não se importando em ser a outra. Sabia que Germano não tinha ideia do que aconteceria se eles assumissem. Ela sabia muito bem. Não conseguiu de forma alguma convencê-lo. Aída a procurou. Sabia de tudo e tentava fazer com que Germano não cometesse aquela inconsequência. Valéria concordava com ela e juntas tentaram persuadi-lo. Conseguiram por um tempo. Um homem apaixonado é capaz de insanidades por amor, ciúmes e paixão. Comete assassinatos. Suicida-se. Destrói patrimônios. Entrega-se a sandices.

Valéria entendeu rapidamente por que Germano suportou tanto tempo a mentira de sua condição. Era fácil amar Aída. Ela acreditava agora que ele a amava sinceramente, coisa que no início duvidou. Outro tipo de amor. Um amor de amizade, de gratidão, de companheirismo. Ela era um ser humano maravilhoso. Possuía defeitos, claro, deveria tê-los, pois era um ser humano. Valéria não descobriu nenhum, não tinha tanta intimidade assim. No início achou que ela devia ter algum problema de autoestima, porque era impossível alguém ser igual a ela: se anular pelos outros. Conhecendo Aída voltou a acreditar em anjos e santos. Percebeu uma sinceridade no amor daquela mulher pelo próximo e por Germano, que sabia não ser capaz de sentir com tamanha intensidade. Pensou em terminar tudo. Seu amor foi mais egoísta que isso. Ela não era capaz dos sacrifícios de Aída. Podia ser a outra. Não podia perdê-lo.

Germano cometeu por fim a insensatez. Para desespero de Aída e Valéria. Não que esta última não tenha gostado de tão grande demonstração de amor. Sabia o que Germano passaria agora. Sabia que as cobranças poderiam minar sua relação, afinal Germano amava os filhos e a família, e seria muito difícil todos aceitarem essa nova situação. Seus filhos rejeitaram-no. Seus irmãos e pais também. Seus clientes. Seu mundo ruiu. Apenas Aída o apoiou. Apenas Aída os visitava. Apenas Aída lhe dava notícias sobre tudo e todos. Valéria percebeu que ela poderia se apaixonar por Aída. Sempre acreditara em uma igualdade entre as pessoas, que diferenças culturais e de caráter eram geradas pelo meio em que se inseriam as pessoas. Conhecendo Aída, ela passou a acreditar que existiam pessoas que são essencialmente boas. Aída poderia ser uma mulher fútil e desinteressante, apenas com a beleza e a posição social, ambas naturais e herdadas. Ela não era nada disso. Posicionava-se em vários aspectos da vida, sem seguir tendências, apenas seguia o que ela entendia como correto. Justa, humana, amorosa. Ela era uma fervorosa defensora do amor. Pode parecer ingênuo dito dessa forma, contudo, não era como se fosse uma menininha romântica que se dedica ao amor de uma forma genérica e abstrata. Ela praticava o amor ao próximo, no auxílio desinteressado, na busca por justiça e conforto, por abrigo. Ela acreditava que o amor podia enfrentar tudo e não se deixava tripudiar e nem esmorecia. Era realmente uma mulher admirável. Não conseguiu mostrar isso aos que circundavam Germano em sua vida anterior. Perdeu a batalha contra a intolerância. Deixou em Valéria a impressão de que era uma mulher inalcançável. Valéria voltou a acreditar na bondade humana desinteressada. Na verdade, nem sabia que isso existia.

Germano, por ser um homem inteligente e culto, desconfiava do que o esperava. Acreditava que reverteria a maré contrária inicial com algumas pessoas. Acreditava que aos poucos aqueles que realmente o amavam, se não o aceitassem completamente, pelo menos iriam desculpá-lo em algum momento e retomar parte do que já haviam tido. Não tinha ilusões sobre ser aceito plenamente e muito menos que aceitassem Valéria. Sua preocupação maior eram os pais e filhos. Seus irmãos não importavam tanto. Gostaria que o aceitassem, claro, porém esperava que os ressentimentos próprios da vida familiar, dos anos da infância, das acusações de favorecimento junto aos pais e tantas outras mágoas obstruíssem o caminho para o entendimento ou que levassem muito mais tempo para que o entendimento chegasse. Apavorava-o a reação dos filhos. Os pais, mais a mãe, acabariam aceitando, ele sabia o que representava para eles. Para ela.

Seus filhos eram tão diferentes de Aída! Se ela tinha um defeito era ter dado mais atenção a estranhos que a seus filhos e eles se ressentiam disso. Mais velhos e experientes entenderiam e passariam a admirar a mãe como todos os que a conheciam. Isso ainda não havia acontecido. Haviam entrado em conflito com Aída. Não entendiam como a mãe podia ter tão pouco amor-próprio que se sujeitava a falar com aquele homem que enganou a todos, que a abandonou por outro homem. A reação inicial deles podia ser considerada normal. Presenciavam de uma conexão genuína entre os pais, que de fato existia, não como eles pensavam nela, e era forte e verdadeira, então quando veio a notícia, a estupefação era de se esperar. A revolta e mágoa eram uma reação natural até esperadas. O tempo curaria a ferida e a cicatrizaria. Seria profunda, modificaria a relação deles, óbvio, mas seria relevada, sem dúvidas. Não foi o que aconteceu.

Nem mesmo sua mãe voltou a se relacionar com ele, por mais que a procurasse. Isso criou uma tristeza profunda nele. Não foi ao casamento dos filhos, que mesmo ameaçados por Aída não o convidaram. Não conheceu os netos pessoalmente. Somente pelas fotos que Aída lhe entregava. Por mais feliz que estivesse vivendo um grande amor com Valéria, aquela insistente rejeição da parte mais importante da família se transformou numa grande mágoa.

Viveram juntos por vinte e três anos. Germano veio a falecer de um ataque cardíaco no ano de 2009. Apenas amigos do casal e de Valéria estavam no enterro. De sua vida anterior, apenas Aída estava lá, confortando e sendo confortada por Valéria. A morte de Germano abriu de vez um precipício entre Aída e seus filhos. Apenas sua sogra e sua filha choraram sinceramente a perda e se lamentaram de não ter tido coragem de encontrar e tentar entender o filho, o pai, e nem tiveram humildade de ir até o velório e enterro. O resto da família se sentiu algo, não demonstrou. Alguém em algum momento chegou a falar alguma coisa sobre herança e dinheiro, sobre bens. Aída, que nunca havia demonstrado raiva, ou ninguém se lembrava disso, gritou e ameaçou que se alguém tivesse coragem de entrar com qualquer tipo de ação na justiça contra Valéria, ela iria cortar não só relações, como se posicionaria a favor dela. Lembrou-os que Germano saiu sem dinheiro algum do casamento, deixando todos os bens para os filhos e apenas com o dinheiro de seu trabalho, tendo aberto mão de todo e qualquer bem familiar que poderia lhe caber no futuro em favor dos filhos. Tendo morrido antes dos pais, não herdara nada, então nada ficara para Valéria do que poderia ser considerado da família. Sua veemência foi tão taxativa que ninguém se atreveu a falar mais no assunto, que dirá tentar algo judicialmente. Sabiam que qualquer briga que tivessem com Aída seria malvista pela sociedade, seja porque razão fosse. Ela continuava a ser uma mulher muito admirada.

Valéria mais uma vez na vida ficou só. Tinha encontrado uma amiga sincera e foi tudo que lhe restou. Seu coração se fechou para o amor.


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