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8 - PRÓLOGO - MARIA DAS DORES DA SILVA

Clichê. O maior problema dos clichês é que eles são clichês, porque a incidência de suas ocorrências é encontrada em tanta quantidade na vida que você acha que conhece todas as histórias e elas são a mesma. Em parte isso é verdade. Os desdobramentos é que são diferentes. Entretanto, também se tornam clichê, pois acontecem com frequência e se resumem a poucas histórias no fim das contas, parecem ser vistas com redundância.

Maria das Dores da Silva ou Dasdô, para os íntimos, é o próprio sinônimo de clichê. Uma mulher tão comum quanto seu sobrenome. Nem gorda, nem magra, nem bonita, nem feia, depende do gosto de quem olha. Seu corpo tem belas formas, mesmo depois dos dois filhos. Nua é um espetáculo. Típica mulata, com formas arredondadas qual estátua de argila moldada à mão com todo cuidado pelo artesão. Contudo, é invisível, poucos lhe lançam olhares desejosos. O problema é Dasdô.

A vida lhe foi implacável, como sói ser com alguns malnascidos de modo geral. Pobre, com ar sempre cansado pelo árduo trabalho fora de casa, e mais ainda dentro. Moça de poucas letras, apesar de inteligente, aprende muito rápido. É faxineira em casas de família. Em todas é bem tratada e benquista, já que honestíssima, muito trabalhadora e afável no trato. Pouco afeita a fofocas. Pouco fala, poucos amigos. Vive para os filhos e para o marido. Se sorrisse mais, provavelmente chamaria mais atenção, seu sorriso é lindo. Tem poucos motivos para sorrir.

Como sói ser com alguns malnascidos, teve no pai pouco afeto e muita violência, como tantos. Não sou politicamente correto. Palmadas não fazem mal a ninguém, apesar do que dizem alguns “estudiosos”. O problema está no espancamento, no exagero, na ignorância. Sendo a mais velha da família, absorveu mais a fúria do dito-cujo, o pai, não uma referência popular para demônio, se bem que a diferença seja apenas mística talvez aqui. Com espírito altruísta, teimava em proteger os irmãos e apanhava por eles. A mãe omissa e de pouca coragem, achava aquilo normal dentro do pouco que conhecia da vida. Uma tragédia clichê.

Dasdô talvez seja uma das melhores criaturas humanas que conheço. Ajuda a todos sem pestanejar, sem cobranças. Mãe prestimosa, preocupada com o futuro de seus filhos, sem ser superprotetora nem condescendente. Como de poucas palavras, quando as usa, sempre faz com propriedade, bom senso, sendo respeitada por todos, apesar de jovem ainda, tem vinte e oito anos.

A vida de Dasdô, apesar de tudo o que lhes disse, é boa, na visão dela. Se não é perfeita, é porque a perfeição não existe, não sendo diferente de tantas e tantas mulheres das quais temos notícias. Sendo uma boa alma, como diriam os antigos, não sente inveja se vê alguma família feliz. Mesmo na pobreza elas existem, não duvidem. Aceita o que a vida lhe dá de bom grado e luta para que ela não dê a seus filhos o mesmo.

Luiz Carlos, seu marido, ou Luizão, como é conhecido, é um boa-vida violento como tantos. Ela o sustenta. Nada afeito ao trabalho. Beberrão e jogador, tem sorte, porém sempre gasta o que consegue com outras mulheres com as quais se relaciona e que não são poucas. O grande problema das mulheres é que apesar de conhecerem a fama de Luizão, poucas conseguem resisti-lo. Luizão sempre foi um homem bonito, desejado e de boa conversa. Desde cedo percebeu seus dotes e elas seu apetite. Insaciável, diziam à boca pequena. Aliado à sua beleza, sua fama o fazia conquistar quase todas as mulheres que conhecia e por onde o conheciam. Possuía um ímã para o público feminino difícil de explicar. Mesmo em plagas desconhecidas, seus dotes logo apareciam. Se rico e célebre, seria um viciado em sexo, como era pobre e anônimo era apenas um cafajeste sem moral, um canalha.

Luizão vivia desempregado, pulando de emprego em emprego, como sói ser com indivíduos como ele. Biscates aqui e ali. Grande covarde que é não se envolve no mundo do crime. Pequenos golpes aqui e ali, sempre sendo cúmplice menor. A verdade era que não se interessava em grandes golpes, em riqueza. Adorava a vida que tinha: uma mulher que cuidava dele, que não lhe cobrava nada. Sua única virtude era a falta de ambição, realmente não possuía sonhos de grandeza. Hão de convir que para um canalha como ele, isso é uma virtude.

Se Dasdô era inteligente porque se submetia a um homem como Luizão? Muitas mulheres, mesmo malnascidas, não suportam um vagabundo dentro de casa. Da violência muitas se resignam, porém, a dureza da pobreza impõe limites para os problemas. Se o homem é trabalhador e coloca dinheiro em casa, elas aturam umas pancadas, pelos filhos, pelo prato de comida, pela roupa. Muitos podem achar isso pouco. Até absurdo. Muitos não sabem o quanto isso é muito em alguns lugares. Não justifico a violência, mostro apenas que a realidade se impõe diante de moralismos e conceitos elevados intelectual e espiritualmente, sem julgamentos do agredido. Não justifica o silêncio delas. Explica-os. É fácil criticar o outro sem ser protagonista daquela história. O agressor é sempre um idiota ignorante e com problemas psicológicos sérios. Não se pode dizer nem que é um ignorante, pois há vários, diria até que a maioria, que não são violentos. O grande dilema, nem sei se é realmente um dilema para ela, a grande questão de Dasdô é um sentimento, muito comum nos clichês: paixão, uma paixão ardente, poderosa e avassaladora.

Não sei se Luizão realmente planejou tudo. Não sei se tem inteligência ou mesmo aptidão para maquiavelismos, ou coisa que o valha. Como já disse, era o objeto de desejo das moças, das velhas e das que ficam entre os opostos. Dez anos mais velho que Dasdô, era algo inalcançável para ela. Sendo ela aquela coisa insípida, seria invisível para Luizão. Mesmo jovem já o era, a vida e a personalidade lhe tiraram o frescor muito cedo. Ele gostava de todo tipo de mulher, não fazia distinção de credo ou raça, todavia, todas eram consideradas bonitas pelo público em geral.

Um belo dia, Luizão percebeu Dasdô. Ninguém entendeu quando ele começou a cortejá-la. Com 17 anos já era trabalhadora e era procurada por todos do bairro para ajudas, socorros e até conselhos. Todos gostavam dela. Viam na menina tímida, calada e séria, uma alma caridosa. E não erraram! Muitos tentaram alertá-la e como sói ser em casos assim: totalmente em vão. Ela sonhava com ele e quando ele começou os galanteios, não resistiu: entregou-se completamente.

Logo veio o primeiro filho e, para espanto de todos, mesmo depois de uma grande tragédia, Luizão assumiu a criança e foram morar juntos. Nem fingiu que iria deixar a vida que tinha e Dasdô aceitava aquilo com naturalidade. Todos sabiam que ela sabia de tudo e que aceitava tudo, então ninguém se envolvia. A personalidade de Dasdô impedia disse me disse, mexericos e futricas. Todos sentiam uma profunda pena dela. Como chegaram à conclusão de que se ela não se importava, quem eram eles para julgar alma tão prestativa? Muitos rezavam para que ela abrisse os olhos e não passavam disso.

Ora, se Dasdô não se importava com a vida que Luizão levava, se tolerava as mulheres, o pouco dinheiro, se não ia buscá-lo no bar e nem lhe exigia coisa alguma, por que Luizão era violento com ela? Necessitasse explicar como era a rotina de jogatina de Luizão. Era viciado em carteado, principalmente, Sueca e Pôquer, todo tipo de jogo de cartas onde poderia haver apostas. Gostava de cavalos também, porém não apostava tanto assim. Já comentei sobre sua covardia e as patas dos cavalos lhe davam mais medo do que o atraíam. Possuía uma boa dose de sorte. Esta se manifestava de modo peculiar: ele, invariavelmente, começava perdendo, e muito, e em algum momento do jogo começava a ganhar, e muito. Parecia que precisava “esquentar” sua sorte ou, para quem não acredita nela, precisava aquecer sua visão dos jogos. Os que já o conheciam usavam isso a seu favor e antes de começar o jogo já diziam que não poderiam ficar por muito tempo e quando ele começava a ganhar, eles saiam do jogo. Cada vez ficava mais difícil para ele ganhar. De vez em quando deixavam que ele ganhasse pelo bem de Dasdô. Sabiam das reações de Luizão. Alguns já se recusavam a jogar com ele por causa disso. Ganhava sempre dos que não o conheciam. Portanto, as surras que dava em Dasdô eram por causa do pouco dinheiro que ela lhe dava para o jogo.

Sendo inteligente e ciosa de seus deveres de mãe e com olhos no futuro dos filhos, Dasdô pagava todas as contas, separava dinheiro para suas vidas: comida, roupas, um mínimo de diversão, que era um sorvete todo fim de semana na lanchonete da praça próxima de onde eles moravam em Santa Cruz, bairro da zona rural da cidade do Rio de Janeiro, e separava um pouco para o jogo de Luizão. Cada vez menos, pelo que já apresentei sobre as características da sorte de Luizão e da percepção dela pelos seus companheiros de jogatina. Sem dinheiro, às vezes com dívidas, Luizão, bêbado de cachaça, sua bebida preferida, ficava louco atrás de dinheiro e como não havia, e ele sabia que Dasdô escondia dinheiro dele, as surras aconteciam. Ela apanhava sem reclamar. Ele sabia que ela nada lhe daria. Descontava sua frustração apenas. Logo em seguida saía e voltava horas depois, desculpando-se e se entregavam ao desporto do sexo com volúpia ímpar. Se muito bêbado, logo depois da surra ele dormia e só acordava na tarde do dia seguinte, tendo toda a vida da casa acontecido normalmente. Se a surra acontecia no domingo, na segunda-feira a filha já havia sido levada para a creche, que custou dois dias de vigília de Dasdô para conseguir a vaga. O filho mais velho levado a uma tia que morava próxima e que depois o levava para a escola. Essa tia era como uma mãe para Dasdô, e ficava com sua filha na parte da tarde e juntas iam buscar Inácio. O menino odiava o nome, claro, nome de velho, não conhecia ninguém com esse nome. Dasdô buscava a força do significado do nome que escolhera para ele: ardente. Acreditava que sua sina estava ligada ao seu nome, apesar de aceitá-la. Por isso escolhera o nome de seus filhos com cuidado e o nome da filha, Berenice, a portadora da vitória, seguia essa mesma lógica. A menina também detestava seu nome.

Inácio crescia forte e bonito como o pai. Odiava-o. Com a inteligência da mãe e uma perspicácia própria, percebeu cedo a estranha relação dos pais. Não suportava a presença de Luizão e as surras. Chorava de raiva toda vez que elas aconteciam.

Berenice é linda e cheia de vida. Com sete anos começava a perceber os problemas da casa e sempre ia até seu irmão quando as surras aconteciam. Abraçava-o e ficava quieta, esperando tudo acabar. Não odiava o pai. Não o amava. Achava estranho não sentir nada por ele. Disse isso uma vez a Inácio. Ele riu e disse que ela era ainda muito nova e não sabia direito o que sentia.


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