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8 - PRÓLOGO - LAURINDO CAMPOS

— Este garoto está cada dia pior! — Enquanto fechava a porta, Antonio dizia isso e continuava. — Hoje nem com as crianças ele brincou...

— Sogrão, Laurindo é esquisito, não sei por que o espanto...

— Não, não, não. Hoje ele estava pior, ele troca algumas palavras com as pessoas pelo menos. Às vezes até conversa... Hoje nem isso! Sabe qual é o meu maior medo?

— Parem de falar mal do Laurindo, esse assunto sempre está presente: Laurindo e sua esquisitice, oh que saco!

— Helena, minha filha, sabe o que é, concordo com você: um saco. E seu marido tem razão: Laurindo sempre foi esquisito. Só que nesta semana me peguei pensando umas loucuras, principalmente depois que a gente fica sabendo de tantos malucos espalhados pelo mundo. Então, eu me peguei imaginando que eu realmente não me espantaria se amanhã ou depois entrasse a polícia por aquela porta dizendo que seu irmão é um psicopata perigoso que mata e come as pessoas, um maníaco de alta periculosidade. Um traficante ou bandido sanguinário. Um matador de aluguel! Eu realmente não me espantaria! E o fato de não me espantar com isso é que me assustou profundamente...

— Ah, mas deixe de ser exagerado, Antonio! — Amália falou enquanto arrumava a mesa do almoço.

— Eu também não me espantaria, Dona Amália, sinto muito, eu me sinto desconfortável quando estou com ele. Ele pode mesmo ser um assassino em série! Só não acreditaria se dissessem que ele é um pedófilo, desses de internet e redes de prostituição infantil. Ele tem carinho sincero, é desprovido de conteúdo sexual, pelos meus filhos e por crianças em geral, aliás, acho até que ele errou de profissão, deveria ter sido professor de pré-escola ou pediatra, pois as crianças também gostam muito dele e são as únicas criaturas humanas que conseguem ter algum tipo de relação de troca com ele.

— Concordo plenamente, meu genro! É nosso filho, Amália, mas sempre foi um estranho nesta casa. Eu também nunca me senti confortável com ele. Sempre tentei conversar com o garoto, como fiz com Helena e Roberto, e nada. Ele sempre foi uma muralha intransponível.

— Ele realmente me preocupa muito! Hoje ele estava diferente mesmo...

— A mim também, querida, a mim também. Só conheci uma pessoa com quem ele se relacionava além dos monossílabos e era seu pai. Coisa que nunca entendi, pois o velho era um boêmio, alegre, mulherengo e mesmo assim se davam muito bem. Do jeito do Laurindo também...

— É mesmo... — Um sorriso de interrogações se formou no rosto de Helena. — Vovô parecia entender aquele isolamento do Laurindo ou então respeitava, sei lá! Mesmo quando éramos crianças, ele não brincava com a gente. Ele brinca com meus filhos melhor do que brincava quando éramos crianças. Eu também acho que ele hoje estava particularmente mais esquisito. Como se estivesse preocupado com algo. Estava mais longe do que sempre. E deve ser algo muito sério, porque não me lembro de ver Laurindo preocupado na vida.

— E tão talentoso... — Amália dizia com um orgulho lamentoso.

— Eu não sei o que ele tem. Sei que não é timidez. Ele se coloca muito bem quando precisa. Olha nos olhos da gente quando fala. Ele é solitário por opção e fez essa opção muito cedo na vida, Amália. Quando criança ele se isolava espontaneamente, lembra? Isso não é normal!

— É verdade, Seu Antonio, às vezes acho que ele despreza a humanidade, não sei, me dá um nervoso o jeito como me olha: me sinto um idiota!

— Isso então me exaspera, Tomaz! Vejo que pensamos parecido, meu genro!

— Calma, Antonio, olha o coração...

— Que coração o quê, Amália! Nós nos acostumamos com isso e quando achávamos que estávamos diante de um gênio, pois tudo no que ele se meteu a fazer na vida, exceto esportes, ele fez bem, com conhecimento profundo, e me faz aquela falseta!

— Calma, Antonio! Ele não quis fazer faculdade, só isso...

— Só isso? Esse garoto podia ser médico, advogado, engenheiro, até maestro se ele quisesse, eu até estava conformado, porque achava que essa seria a profissão que ele iria escolher: músico. Já estava até orgulhoso! Sabia que seria brilhante: meu filho um maestro de Orquestra Sinfônica!

— Menos, Antonio...

— Eu estou sendo o mais sincero e honesto possível! Esse menino é um gênio! Você sabe disso. E ainda com aquela história de só tirar oito em todas as matérias, em todas as provas? E no ano do vestibular, vejo o garoto pra cima e pra baixo com aqueles livros de Direito. Direito Constitucional, Direito Administrativo e mais não sei o quê e pensei: porra, esse garoto tá colocando o carro na frente dos bois, nem passou no vestibular e já tá estudando nos livros da faculdade, vai ter autoconfiança assim no inferno! Fiquei até receoso, pois com a personalidade dele, podia ser brilhante, mas não sei se conseguiria se relacionar com os clientes. Um advogado como ele ia morrer de fome, quem iria procurar um que não fala?

— Hahahahaha... Boa essa, pai... Então ele faz um concurso público, passa em primeiro lugar e anuncia que não vai fazer faculdade! Nós já conhecemos essa história, pai...

— Mas vocês não concordam que é um absurdo? Ele podia ser um pesquisador se não quisesse trabalhar com gente, podia ser maestro, músico... Seria um músico de sucesso, não o líder do grupo com certeza, mas um músico como tantos por aí, respeitado, vocês sabem que não estou mentindo! Vocês sabem como ele toca muito bem uns três ou quatro instrumentos... E mais não sei quantos razoavelmente bem! E o que ele resolve ser? Funcionário público! Nada contra, é um belo futuro para muitos, mas prum garoto como ele? E mais, funcionário de segundo escalão, sem universidade, porque nenhuma profissão o atraía, nhenhenhe... Não fode! Ou seja, não vai chegar muito longe na carreira. Podia fazer Economia ou Administração de Empresas então. Direito mesmo. Mas não quer!

— Vou aproveitar que o Roberto não está aqui hoje e dizer que você tem que ser grato ao Laurindo também, pai, porque eu e Roberto fomos bons alunos por causa dele. A gente conversava e não admitia que o caçula fosse melhor que a gente. Hahaha! E a gente conseguia se igualar, nas notas pelo menos, era uma competição silenciosa e sadia. Agora, quando ele chegou com aquele violão aos dez anos, eu e Roberto estávamos nos preparando para imitá-lo. Só que ele aprendeu tão rápido, evoluiu tanto em tão pouco tempo, sem que suas notas na escola diminuíssem, que nós dois chegamos a um acordo sem palavras: a gente não podia competir com aquilo, foi nos dando aquela invejinha boa, de admiração: “Poxa como ele consegue. Ele é muito bom.”.

— Seu irmão ainda usava o coitado pra paquerar as meninas. Chamava Laurindo pra tocar violão e ficava de maestro: toca aquela, e agora aquela, a fulana gosta daquela outra.

— É mesmo mãe. Hahahahaha! E Laurindo gostava, não falava nada, mas cantava, se divertia, esse era o seu prazer. Eu também sempre pensei que ele seria músico...

— Tão cedo assim ele começou a aprender?

— Sim, meu amor. E você não acredita como eu e Roberto nos sentíamos e depois nos frustrávamos, por pouco tempo também... Logo, logo, a gente percebeu que ele tinha um talento natural que não íamos conseguir acompanhar. E concordo contigo: pedófilo ele não é, porque gosta de nossos filhos sem segundas intenções. Nunca o vi se insinuar ou uma das crianças comentar alguma coisa estranha. Pedófilos começam com as crianças próximas, não se aguentam...

— Eu também pensei que ele seria músico, minha filha. Ele tinha todos os requisitos: talento, conhecimento musical... E seu pai, Amália, fez muito mal em deixar aqueles apartamentos pros netos diretamente em testamento, pois foi a primeira coisa que ele fez: se mudar. Saiu das nossas asas e da nossa influência...

— Ora, não seja idiota, Antonio: influência foi algo que nunca tivemos sobre Laurindo...

A conversa continuou da mesma forma como tantas vezes acontecia. Em raras ocasiões algo novo era acrescentado, como o detalhe da confissão de Helena sobre o efeito que Laurindo teve sobre os irmãos em relação aos resultados escolares dos dois. Vamos deixá-los para que se conte um pouco melhor a história de Laurindo. Exageram? Um pouco talvez, contudo uma coisa é certa: Laurindo é digno de um exame psicológico mais profundo. Não, não é um psicopata assassino. Não é um pedófilo, muito menos um matador de aluguel. Menos ainda um desses que em algum momento de suas vidas sofre um surto e comete atrocidades, torturando pessoas, matando a esmo ou algo do gênero. Certo da cabeça, porém, não é. Definitivamente. Será autista? Sofre de Síndrome de Asperger? Qual será seu problema? Isso é o mais intrigante. Mormente, aqui iniciamos uma velha celeuma: o que é normalidade? De perto ninguém é normal, se diz por aí, na canção e na boca do povo, pois ninguém o é mesmo, todos nós temos lá nossas esquisitices. Laurindo é um pouco pior ou não, não sei, decidam vocês.

Diferente de outros narradores que existem, sou apenas onipresente, não sou nem onisciente e muito menos onipotente. Não tenho influência nenhuma nas decisões daqueles cujo momento de vida narro e nem conheço seus desejos e impressões mais profundos. Não leio seus pensamentos. Posso até fazer conjecturas. Baseado somente nos fatos. Conhecendo todos, acerto na maioria das vezes meu diagnóstico. Um narrador fajuto eu sei, contudo, dada a natureza singular desta história, quis contá-la, por causa de Laurindo e de sua personalidade peculiar, que tornam surpreendentes algumas de suas atitudes, que contradizem toda sua vida anterior e suas verdades. O que reafirma, parafraseando certo bardo inglês: os seres humanos têm reações que a própria razão desconhece.

Atenhamo-nos ao que disse sua família: tímido em excesso? Não. Despreza a humanidade? Dá-nos essa impressão pelo modo como olha a todos, o que se passa em sua cabeça realmente não sabemos. Esse desprezo com o qual parece olhar se deve muito a algo que é deveras corriqueiro: ele é um gênio. A maior parte das pessoas muito inteligentes costuma desdenhar dos que não possuem sua capacidade. Sua cultura e a facilidade com que a adquiriu e adquire constantemente são impressionantes. Sempre estudou bastante e aprende muito rápido. Gosta do conhecimento. Chegou a uma fase em que já não precisava estudar mais os tópicos das disciplinas específicas aplicadas na escola, pois estava muito à frente de seu currículo escolar. Possui uma memória fantástica: visual, verbal, auditiva. Não deixou isso transparecer, por escolha própria. As pessoas de forma geral não têm certeza de que ele seja um gênio. Desconfiam fortemente.

Humildade? Um pouco, nunca gostou de ser o centro das atenções, sempre evitou isso. Quando tocava violão com o irmão e seus amigos, em rodas de samba com o avô pelas boemias da vida, atinha-se tão somente ao instrumento, cantava sempre tentando ser a segunda voz. Escondia-se ao máximo que, dadas às circunstâncias, conseguia, já que se destacava nessa matéria. Como era extremamente calado, falando apenas o estritamente necessário, quase obtinha seu intento: passar despercebido. Não entabulava conversas nos intervalos e nem se alongava nos elogios recebidos, calando-se rapidamente. Pontuava uma coisa ou outra que revelavam conhecimento profundo de música e da vida de músicos de maneira geral. Sumia nos intervalos de descanso para ressurgir quando a música voltava. O que é inusitado e estranho, como muito bem afirmou seu pai.

Seus professores logo perceberam que estavam diante de um aluno diferenciado. Como ele insistia em se esconder, a maioria desistiu de estimulá-lo. Sabiam que seria improdutivo e inócuo. Um dos professores uma vez resolveu desafiá-lo: fez uma prova para que todos obtivessem nota sete, no máximo. Três das questões eram muito difíceis para o nível dos alunos da sexta série, até para alunos bem mais adiantados. O alvo era Laurindo. O professor se irritava com sua insistência em tirar somente notas oito. Ele deveria tirar só notas dez, pois era capaz disso. Laurindo fez questão de acertar as três e escolheu as duas mais fáceis para errar. O professor em questão desistiu. Entre os demais professores ficou famosa essa história, divertiam-se com ela. Laurindo então se sentiu livre para experimentar voos intelectuais maiores. Passou a ler de tudo. Literalmente.

(CONTINUA)

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