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8 - PRÓLOGO - LÍVIA CAMPOS

Desculpem-me o tom, um tanto sarcástico, mesmo debochado, que uso algumas vezes. Não imito Machado ou Cervantes, mesmo que goste muito dos dois e sejam dos meus favoritos. Esse tom, por vezes até de escárnio é tão somente por achar que a própria vida o é. É-nos muito fácil atribuir nossas responsabilidades a algum deus impessoal que nos usa como títeres. Até acredito num Deus superior, o universo é muito complexo para ter surgido do nada. A minha própria existência de narrador fajuto que tudo vê é exemplo de mistério sobrenatural. Não descarto a possibilidade de Sua não existência, custa-me crer apenas.

O que não entra na minha cabeça de jeito nenhum é que um Ser tão poderoso e tão criativo fique a tabular vidas insignificantes indicando o que ocorrerá, em que tempo, em que minuto, com quem. Façam-me o favor! Somos completamente responsáveis por nossas ações e, consequentemente, pelo que delas decorre. Como vivemos no planeta Terra, acabamos cruzando com este ou aquele que acabarão por ser de alguma forma, importantes em nossas vidas ou não. Então passamos a crer que tudo “está escrito”, no inexorável destino que controla nossa desdita. A vida é tão aleatória que podemos comprová-la com a morte. Um sujeito está num trem que descarrila e todos os que estão no seu vagão, menos ele, morrem. Acaso. Outro sujeito anda pela rua e um galho de árvore cai em sua cabeça, matando-o instantaneamente. Acaso. Se bem que vendo por outro ponto de vista podem usar esses mesmos exemplos para provar que tudo estava escrito e que era chegada a hora do outro e do um não. Voltamos ao início numa redundante expressão de opiniões controversas e contrárias. Creia no que quiser que eu creio no que quero e não se fala mais nisso! Continuo a acreditar nas nossas escolhas e aceito que não creia nelas. Isso é tão assustador que noventa por cento da população mundial iria paralisar e não fazer nada com medo das consequências para si e para o outro. São covardes demais para assumir posições, erros que impliquem na desgraça do outro. Do sucesso são sempre donos e ajudantes. Do fracasso nunca. Do próprio então...

Nossas escolhas são muitas vezes surpreendentes para nós mesmos. A morte de José Bento foi muito mais sentida por Laurindo do que ele poderia prever, já que tinha uma posição sobre a morte como algo perfeitamente natural, destino de todos nós e que nada nesse sentido é inesperado, a não ser quando ela acontece. Triste sim, porém corriqueira. Acreditava sinceramente que havia conseguido superá-la rapidamente e passou a fazer a maioria dos programas que fazia com o avô, sozinho. Sentia falta das rodas de samba e dos encontros com outros músicos, mesmo que não admitisse ou mesmo reconhecesse esse sentimento dentro dele. Percebia-se como sentia falta quando ia a alguns shows mais intimistas em barzinhos e acabava conhecendo um dos músicos e este o convidava para tocar uma ou outra música. Ficava claramente feliz e, ao contrário do que podíamos imaginar, aceitava. Foi chamado algumas vezes e foi aos encontros das rodas de samba, porém, a ausência do avô fazia com que se transformassem em uma inadequação, não conseguiu mais se sentir confortável nesses lugares. Deixou de frequentá-los e iniciou uma reclusão voluntária mais consistente. Entretanto, a vida continua a acontecer, os caminhos seguem para algum lugar e te trazem de lá e as ondas continuam a ir e vir.

Saindo de uma mostra de cinema independente em um Centro Cultural localizado no centro da cidade do Rio de Janeiro, a algumas quadras de sua residência, Laurindo andava pela rua, observando toda sorte de fauna noturna urbana com o olhar distante e monótono de sempre. Ao passar em frente a uma boate, cujo público-alvo era os homossexuais, foi interrompido bruscamente. Valéria Menezes amiga de seu avô, assim como Germano, seu falecido companheiro, postou-se ereta e brilhante à sua frente. A boate pertencia a ela, que estava na porta para resolver um problema qualquer na bilheteria. Valéria conhecia Laurindo e tinha estado com ele em alguns encontros com seu avô. Ela adorava José Bento. Eram amigos há muito tempo. Ele foi o primeiro empresário da Associação dos Comerciantes do Centro da Cidade a acolhê-la como igual, sem questionar ou olhar de maneira diferente para ela. Percebendo seu ímpeto sexual, Valéria chegou a suspeitar que José Bento não percebera sua verdadeira natureza. Enganara-se. Ele simplesmente não tinha preconceitos. Se gostasse da pessoa. Havia simpatizado com Valéria e gostado da sua postura discreta e elegante. Foi ao seu estabelecimento algumas vezes com companhias femininas e gostava das apresentações. José Bento gostava de pessoas talentosas do ramo da arte, qualquer tipo de arte, e ele via em Valéria um talento excepcional. José Bento gostava de conversar com Germano e tratava os dois como se fosse qualquer casal, coisa rara entre pessoas mais velhas, que necessitavam de um tempo para se acostumarem, ou não aceitavam. Valéria concordava com ele no quesito Laurindo: achava o rapaz um grande desperdício de talento.

— Laurindo, meu caro, como vai! Há quanto tempo... — Valéria apertou a mão do rapaz sem deixar que ele recusasse.

— Valéria, não? Sim, sim, como vai. Já faz algum tempo sim, desde que vovô faleceu...

— Uma pena mesmo! Eu adorava seu avô. Ele sempre me tratou com tanto respeito...

— Vovô não escondia de quem ele gostava ou não. Fosse quem fosse: se gostasse tratava bem. Eu soube que Seu Germano também morreu. Sinto muito, gostava dele.

— A vida é assim mesmo, não? Esse destino é igual para todos. E a falta que nos fazem acaba se desfazendo no dia a dia e ficam as lembranças. E você? Não tenho te visto nos encontros. Soube que foi a um ou dois, que eu não pude ir e depois não apareceu mais?

— Tempo, sabe? Tenho andado ocupado com trabalho...

— Não é a mesma coisa sem José Bento, né? — Valéria disse aquilo o interrompendo com um sorriso acolhedor. — Seu avô era um homem especial mesmo. Vocês tinham uma ligação muito, muito forte... Você deixou de tocar?

— Não, não... É-é-é... Toco em casa, montei um pequeno estúdio no apartamento que vovô me deixou. É aqui perto, no bairro de Fátima. Isso também me deixou ocupado. — Laurindo foi pego de surpresa com o ímpeto e a sinceridade de Valéria.

— Vem, vamos entrar, porque eu me lembrei de uma ideia que tive há algum tempo atrás e agora neste instante me veio novamente à cabeça e quero apresentá-la a você. — Valéria deu o braço a Laurindo que não conseguiu fugir dali, por mais que quisesse.

Entraram na boate que àquela hora ainda estava um pouco vazia. O DJ tocava a versão de “Summertime” gravada por Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, em 1957, para Laurindo a melhor versão do clássico dos irmãos Gershwin. Isso foi um bálsamo tranquilizador para ele.

Oh, Your dáaddy's rich / And your maaa is good lookin' / So hush little baby / Doooon't you cry (Oh, seu pai é rico / E sua mãe é linda / Então se acalme pequeno / Não chore). — Ele cantava baixinho em cima da voz perfeita de Ella no final da música com a segunda voz de Louis Armstrong fazendo contraponto.

Isso fez com que Laurindo se sentisse bem e acolhido. A música tinha esse efeito sobre ele. Valéria começou a falar sobre seu talento, sua voz e sua timidez. Foi clara, sem ser invasiva. Firme, sem ser arrogante. No final lhe fez uma proposta.

— Laurindo... Sei que você já recebeu vários convites para se apresentar profissionalmente e nunca quis fazê-lo. Seu avô me contou tudo sobre você, tudo o que ele sabia, claro, sobre você e a música. Sou uma pessoa muito observadora e sua timidez é peculiar. Ela advém não de uma timidez clássica, a da vergonha pura e simples, mas do constrangimento em ser o centro das atenções. Digo isso, porque provocado você reage bem ao falar e ser calado não é timidez, como muitos pensam, e sim ser mais reflexivo. Você já pensou em se apresentar num palco disfarçado? Você acha que conseguiria?

— Confesso que não sei e nem entendi o que quer dizer com isso. — Laurindo estava genuinamente espantado com aquelas palavras de Valéria, pego de surpresa mais uma vez, principalmente com a perspicácia demonstrada por ela sobre sua postura, com tão pouco contato que tiveram.

— Laurindo, eu concordava com seu avô sobre o desperdício de seu talento. Como sou mais vivida nesse negócio de trabalhar com arte e música do que ele, compreendo a sua atitude. Sei que existem pessoas que têm apreço pela arte, com grande talento e que não necessariamente gostariam de trabalhar com ela. Há pessoas que conheço que tentaram trabalhar no ramo e não gostaram e passaram a trabalhar de forma pseudolúdica, sem a obrigatoriedade de subsistir dela. Como um hobby, que por vezes pode até ser remunerado. Acho que você se encaixa nesse caso. Sei também que você nunca tentou, por uma particularidade sua, da sua personalidade. Eu confesso a você que tive essa ideia há muito tempo e nunca a verbalizei. Você costumava conversar bastante com Germano e ele admirava sua inteligência e cultura e comentava as conversas comigo. Você o surpreendeu muitas vezes com pontos de vista bem peculiares, próprios e pertinentes. Ele ficava sempre muito bem impressionado com as conversas que tinham. Como os dois morreram, seu avô e Germano, achei que nunca mais iria te encontrar e a ideia se perdeu. Achei-a hoje ao te ver na rua.

— Fico lisonjeado e grato pelas palavras e impressões que causei em você e em seu companheiro, mas realmente não me apresentaria em sua boate, se é o que está sugerindo...

— Sabia que apesar de indiferente, digamos assim, às coisas de modo geral, você era uma pessoa perspicaz. Sim estou sugerindo que se apresente aqui. Porém, prevendo sua reação e mesmo desconfiado da natureza da sua recusa em se apresentar mais formalmente, porque naquelas rodas e encontros, a informalidade do evento acaba te escondendo e ficava mais fácil para você participar, eu pensei em algo mais rebuscado mesmo. Você tem umas características pessoais, físicas quero dizer, que se encaixam: você é magro, boa estatura... um metro e oitenta?

— Quase, um e setenta e sete.

— Você é quase imberbe. Tem olhos pretos comuns. Pode ser considerado um homem bonito, e não me entenda mal, mas sem muito mais que chame a atenção. Portanto, pensei em criar, ou deixar você criar um personagem, um travesti mesmo se quiser, atrás de quem você iria se esconder e se apresentar e montar números, com minha interferência ou não, desconfio que você tenha bom gosto. — sorriu. — Sabe, Laurindo, eu gosto de apresentar números diferentes, surpreender meus clientes e acho que um número contigo seria maravilhoso!

Laurindo olhava-a com surpresa. Nada desse tipo lhe passara pela cabeça. Sorriu depois de alguns minutos, fingindo ruminar a ideia e respondeu educadamente.

— Pensarei em sua proposta. Confesso que estou um pouco atordoado com o convite, mas se não houver obrigações e puder ter liberdade de criação, quem sabe? — sorriu mais uma vez.

Saiu dali como quem sai de um trabalho extenuante. Aliviado, sentindo-se um pouco zonzo. Pensou no assunto? Claro que sim. Só não sei o que pensou, lembrem-se: sou um narrador fajuto. O que posso dizer é que deve ter remoído aquilo com afinco. Deve ter achado uma loucura inicialmente. Respondera que pensaria no assunto apenas por educação.

Por vezes, seu semblante era acometido por rugas e expressões de estranheza ao longo dos dias que se seguiram. Somente quando estava ocupado em seu trabalho, ou em sua casa, cozinhando, ele adorava cozinhar, ou no estúdio, ou lendo seus livros, ou pesquisando na internet algo de seu interesse, essa estranheza não aparecia. Ao longo do tempo, um sorriso de graça aparecia logo após a estranheza. Até que um dia isso se transformou em assunto sério. Como sei? Pela atuação dos dias seguintes à mudança. Começou a pesquisar técnicas de maquiagem, roupas e acessórios femininos. Em seu estúdio, tentava timbres diferentes, falsetes. Começou a gravar e testar arranjos diferentes para músicas das quais gostava, nacionais e estrangeiras. Fazia claramente um repertório combinando ritmos, estudando performances.

Apareceu na boate dois meses depois. Convidou Valéria para ir à sua residência. Sim, isso mesmo, o eremita urbano convidou alguém por livre e espontânea vontade a ir ao seu reduto. Achava que poderiam discutir melhor o repertório, roupas e essas coisas. O que acho disso? Creio que o inusitado da ideia atraiu Laurindo. Viu naquele convite uma forma de ser outro. Colocar em prática aquilo que sempre esteve presente em sua vida através da leitura: conhecer outras realidades e visões de mundo. A diferença desta vez é que ele seria o protagonista, mesmo que disfarçado. Nunca pensei que Laurindo pudesse se interessar por aquela proposta. Solidão? Curiosidade? Creio que nem ele tinha noção real de qual sentimento passou por sua cabeça ao aceitar. Acrescento que, a saudade que sentia do avô e não percebia, tenha sido fundamental para essa escolha inusitada. Mesmo sendo um narrador fajuto, conhecendo meus personagens, advogo considerações psicológicas, quase sempre certeiras, sobre eles. As aventuras de sua vida haviam sido com o avô. Suas descobertas musicais, suas andanças por mundos que sozinho nunca seria capaz de conhecer, estavam lhe fazendo falta.

Experimentou vestidos que comprara diante de Valéria. Perguntou sobre perucas. Mostrou o repertório. Desistiu dos falsetes. Disse que iria levar seu teclado, com os arranjos pré-gravados e tocar um instrumento ou outro. Um violino, violão, um cavaquinho, uma flauta, contudo, na maior parte do tempo seria o teclado. Valéria impressionara-se com aquela qualidade que não sabia existir: a de multi-instrumentista. Isso seria melhor do que pensara inicialmente. Valéria maquiou-o com o que achava que seria o seu tom. Suavidade era a marca dele, por isso a escolha do nome do seu alter ego. Laurindo contou a história de sua personagem e de como a apresentariam.

Assim nasceu Lívia Campos. Assim Laurindo saiu um pouco de seu casulo, e se antes era escudado pelo avô, agora era por Lívia. Lívia seria o exato oposto de Laurindo. Apesar de discreta também era elegante no andar, totalmente segura de si. Imponente. Sua figura plainava pelo salão e deixava todos extasiados. Muitos se apaixonaram por ela e seu talento. Lívia dizia-se comprometida e que seu companheiro era ciumento, razão pela qual nunca via suas apresentações. Desde que retornaram da Europa, moraram muitos anos em Berlim, ele evitava ir com ela às apresentações. Laurindo podia enganar muitos, tinha alguma fluência em alemão, inglês, francês, espanhol, italiano e grego. Autodidata em todas essas línguas aprendeu-as para ler os clássicos em seus originais. Sua apresentação em pouco tempo tornou-se a atração principal da boate. Teve que se render aos desejos de Valéria e realizá-lo pelo menos um sábado ao mês. O dia certo de sua apresentação era toda terça-feira, iniciando pontualmente às 22 horas.

Tornara-se uma diva. Lívia cantava cada dia melhor, mudando seu repertório e introduzindo novidades. De vez em quando apresentava uma música de sua autoria e de seu companheiro: Laurindo Campos. Era um sucesso absoluto. Com o equipamento profissional que possuía em casa, gravou as músicas que mais gostava de suas apresentações, e algumas de suas composições, e as vendia na boate, depois de pedidos insistentes de fãs que já arregimentara. Nunca se trocava lá. Já chegava pronta, desfilando pela rua. Saía do edifício onde morava, vestida e maquiada. Os empregados não reconheceram Laurindo nos primeiros tempos. Como ele também não se importava com o que poderiam dizer, ignorou os olhares debochados que foram surgindo aos poucos com o reconhecimento, se é que os percebia.


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