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8 - PRÓLOGO - ALICE WEIBBER

Alice era a filha mais nova de Orlando Weibber, um empresário do mundo da moda com marca própria, herdada do pai, um judeu fugido da Alemanha nazista. Naquele país já trabalhavam no ramo de vestuário. O avô, precavido, percebeu que algo muito sério iria acontecer em seu país com a ascensão nazista. Vendeu tudo que possuía, por preço bem abaixo do real valor e se mudou para o Brasil. Alguns fizeram o mesmo. Inicialmente, foi criticado duramente. Tempos depois era conhecido como um dos visionários que soube reconhecer os sinais de que tempos duríssimos viriam para o povo judeu na Alemanha. Foi o que os salvou. Como trouxe toda a família e vendeu, perdendo dinheiro, tudo o que possuíam lá, a fortuna já não era tão grande aqui. Uma boa quantidade de bens foram quase doados, se comparados a seu valor real. Trabalharam arduamente como fazem a maioria dos imigrantes e conseguiram montar uma loja de roupas e uma pequena fábrica no centro do Rio de Janeiro. Hoje possuem lojas em todo o país. A entrada no chamado mundo fashion se deveu muito a Alice.

Se Orlando conseguiu manter e ampliar o legado da família, Alice o superou. Seu irmão mais velho é um gênio da física. Cedo mostrou aptidão para os estudos e fez Doutorado em Harvard, convidado pela excelência de alguns trabalhos que apresentou quando ainda morava no Brasil. A irmã é médica cardiologista. Sendo a mais nova e a que melhor aproveitamento escolar possuía dos três, muito se esperava dela. Aos quatorze anos já adorava moda, claro, como boa parte das adolescentes. Lia tudo. Interessava-se por uma parte que a maioria das adolescentes nem sabe que existe: queria saber tudo sobre as fibras têxteis, tipos de corte, tipos de costura e o que mais existisse sobre a parte técnica. Pediu para começar a trabalhar com as costureiras e depois da aula ia até a fábrica com o chofer e trabalhava por meio período. Boa parte da fábrica era automatizada, entretanto, havia um setor de arremates e consertos e em alguns modelos para colocação de apliques e outras coisas que imprimiam a qualidade com que a marca começava a ser conhecida. Fazia questão de trabalhar mais do que as operárias. Não queria que a vissem como a “herdeira”. Inclusive virou sua porta-voz. Achou extremamente interessante algumas ideias que elas verbalizavam entre elas. Levou-as ao pai. Instalou-se uma caixa de sugestões de melhorias para que os empregados pudessem se expressar. Premiavam-se as que fossem utilizadas. Criação de Alice. Mal sabia ela que em outras empresas pelo mundo isso começava a se tornar comum. Continuou com excelentes notas na escola. Ao terminar o ensino médio decretou: queria trabalhar em tempo integral na fábrica.

A comunidade judaica é reconhecida pelo valor que dá à educação. As mentes mais brilhantes do mundo científico encontram-se entre suas hostes. O número de ganhadores do Prêmio Nobel que são de origem judaica está aí para confirmar a assertiva. Seu pai, por mais que lhe fizesse quase todas as vontades, disse não ao seu desejo. Ela tinha que estudar em uma universidade. Não só porque eles podiam pagar os melhores cursos ao redor do mundo, mas porque era essencial para a boa formação de qualquer pessoa. Foram-lhe oferecidos cursos de moda em Milão ou em Paris. Algo de peso deveria fazer. Ela não queria. Teimosa e talentosa recusou-se a aceitar o que estava sendo imposto pela família.

Pediu demissão das empresas. Preparou um currículo e eliminou o sobrenome paterno, usando somente o materno, pouco conhecido no meio da moda. Dado seus conhecimentos e expertise, apesar da pouca idade, conseguiu uma entrevista. O profissional de recursos humanos estava certo de que Alice mentia desavergonhadamente e a chamou para a entrevista como forma de ensinar-lhe uma lição de vida de tão indignado que ficara. Uma menina de dezoito anos não poderia ter toda aquela experiência... Impressionou-se com a elegância, postura e beleza de Alice. Impressionou-se com seus conhecimentos. Percebeu que estava diante de um raro caso de talento nato e esforço pessoal. Alice escondia sua condição de membro da família, porém ao ser questionada sobre o porquê de ter pedido demissão, já que trabalhava com carteira assinada desde os quatorze anos com o consentimento da família e obviamente havia aprendido bastante com os antigos patrões, disse que diferenças de opinião causaram a ruptura do contrato. Mais não disse. O recrutador da empresa teve a impressão de se tratar de uma profissional séria e ética, apesar da pouca idade. Ao comentar depois com os subordinados sobre suas impressões referentes àquela descoberta, disse que ela deve ter recebido uma proposta indecente. Sendo moça muito bonita, devem ter respeitado sua condição de menor de idade, enquanto ainda o era. Contudo, ao se tornar uma mulher adulta, os chefes mais assanhados devem ter tentado algo mais. Um caso clássico. Ela era tudo o que a empresa precisava agora.

Descobriu a verdade quando a contratou e Alice teve que entregar os documentos verdadeiros e a carteira de trabalho. Na verdade, se tivesse pesquisado um pouco mais teria chegado à verdade sobre ela antes, porém, estava tão inebriado com sua descoberta que nem pensou nisso. Chamou-a novamente à sua sala e questionou-a sobre a mentira. O fato de trabalhar com o pai desde cedo já era conhecido no meio. Como ela era discreta e não aparecia em fotos naquela época, as pessoas não a conheciam. Os pais poupavam-na também. Ela explicou o caso sem rodeios ou desculpas. Sentenciou ao final: “Eles não queriam aceitar as minhas condições, então não tinha porque trabalhar mais com eles, mesmo sendo minha família.”. Entendeu seus argumentos e fez o que todo adulto, mais velho e experiente, faria: expôs os problemas que isso poderia acarretar para ela no futuro, sobre como o autodidatismo muitas vezes é mais demorado e que ela tinha além de talento, possibilidades reais de alcançar muitas coisas, adquirindo conhecimentos em grandes escolas, trabalhando com os melhores profissionais do mercado da moda ao redor do mundo. Ela olhou diretamente nos olhos dele e perguntou: “Você vai perder uma profissional com minha capacidade agora, apenas porque no momento eu acho mais importante aprender trabalhando do que estudando?”.

A autoconfiança dela associada à sua beleza e ao óbvio burburinho que causaria aquela contratação no mundo empresarial do setor, derrubaram alguns escrúpulos que teimavam em surgir.

Alice trabalhou com eles por dois anos. Foi uma sensação. Mesmo sob os protestos da família, principalmente dos pais, conseguiu realizar seu desejo. As indústrias têxteis Weibber recontrataram-na sob suas condições, subjugados pelo que havia feito naquela pequena fábrica que a contratara. Ela, inclusive, sugeriu que eles a comprassem ou fizessem uma fusão entre as empresas. Fizeram uma oferta de compra irrecusável. Através dela se alçaram ao mundo fashion. Rapidamente ascendeu e ninguém viu nisso proteção ou um caminho natural na ordem das coisas. Todos a admiravam. Apesar da pouca idade, reconheciam sua competência, sua liderança natural, sua habilidade para lidar com os funcionários e com a diretoria. Era firme nas decisões sem ser autoritária.

Aos 21 anos já era consultora especial da presidência da empresa. Cargo que o vice-presidente criara. Ele era seu tio. Ela já mostrava os caminhos que a marca deveria seguir. Seu pai e seu tio aceitavam tudo o que vinha dela, percebiam que possuía um faro raro para mudanças, problemas em áreas da economia que eles não haviam percebido e que não tinham nada a ver com seus negócios diretamente, e que acabavam afetando-os por contágio, como se diz no jargão econômico. Ela tinha o saudável hábito da leitura e lia de tudo. Gostava de jornais desde pequena, diferente da maioria das pessoas que só gostam a partir da entrada no mundo adulto. Lia todos os editoriais do jornal: esportes, economia, política, entretenimento. Aos 18 anos, lia quatro jornais por dia com uma rapidez impressionante, dois deles em inglês: o New York Times e o Financial Times. Fundamental, entretanto, era o conhecimento e a amizade que tinha com várias funcionárias. Sabia de suas vidas. Ouvia seus problemas e suas conquistas. Esse contato com a realidade aliado a seus conhecimentos e a uma habilidade inata lhe davam o famoso faro.

Aos 22 anos a grande mudança da sua vida aconteceu: em um festival de moda, na Riviera Francesa, em que fariam muitos negócios e abririam caminho para a internacionalização da marca, uma tragédia tomou conta da vida de sua família. Alice não pôde ir ao festival, o que inicialmente fora frustrante, quebrara o tornozelo em um acidente na lancha do namorado, pisou em falso e ficou com o pé preso entre o píer e a lancha. Resultado: três parafusos e uma placa de platina impediram-na de ir a um evento ao qual se preparava há meses. Nessa viagem, um acidente de carro matou seu pai, seu tio e um diretor da empresa, além do motorista francês que os servia na descida da cadeia de montanhas do sul da França e norte da Espanha: a Cordilheira dos Pirineus.

As famílias chegaram a uma conclusão rapidamente: ela deveria ser a presidente, mesmo tendo dois primos mais velhos que já trabalhavam na empresa há mais tempo e que faziam parte da diretoria. Os próprios concordaram com a solução. Ninguém duvidava de sua capacidade e visão de negócio. Naquele momento estavam pensando na empresa apenas e possíveis vaidades foram postas de lado, pois o baque fora muito grande. O mercado duvidou da escolha. Ela duvidou. Pela primeira vez na vida se sentiu insegura nessa área. Sempre que apresentava suas ideias tinha o respaldo de certa irresponsabilidade, o que dizia poderia não ser aceito e ela apenas utilizava sua intuição. A decisão final não seria dela. Isso lhe dava uma licença poética no trato dos assuntos. Seus argumentos eram sólidos, sua análise bem fundamentada, mesmo assim, não era sua responsabilidade no final das contas. Mesmo que nunca tivesse errado até aquela data, se sentiu pressionada e com medo. Não podia dizer não, pois sentiu que naquele momento delicado até os funcionários queriam aquilo. O peso da responsabilidade venceu. Assim, tornou-se a mais jovem presidente de uma grande empresa no país.

Alice é linda! Já disse isso? Loura, 1,75 cm de altura. Corpo escultural. Seu rosto parece esculpido com toda delicadeza por um Michelangelo, sem ser aquele rosto de boneca, tem personalidade nos traços. Olhos azuis, um sorriso encantador. Aventou-se a possibilidade de uma carreira de modelo quando tinha treze anos e mostrava tanto interesse por moda. Não era o que ela queria. Não tinha vocação para passar fome e nem para os outros sacrifícios que se impõem às modelos de forma geral. Mais tarde tentaram convencê-la a associar sua imagem à empresa. Ela recusou a ideia. Invariavelmente sua imagem foi associada à marca por conta de toda a tragédia e da sua idade, não foi preciso aprofundar essa questão, pois assim aconteceu naturalmente. Mesmo antes, nos eventos em que comparecia com o pai e com a diretoria, já era vista como prodígio: beleza aliada à capacidade. Virou uma espécie de celebridade. Era convidada para eventos fora do ramo da moda e procurada para entrevistas. Fotografada constantemente. Fazia questão de ser discreta. Escolhia muita bem com quais jornalistas faria entrevistas e fazia poucas por ano, nenhuma para o caderno de fofocas, o que só ressaltou suas qualidades de empresária séria e compenetrada, sendo conhecida por sua simpatia, desenvoltura e discrição. A empresa ganhou valor de mercado com tudo isso depois de um tempo.

Linda, inteligente, rica, famosa, bem-sucedida e... sem sorte no amor. Nem sabia o que era. Até aquela data havia tido dois namorados e, como toda jovem dos dias atuais, várias aventuras entre um e outro e depois do outro e antes do um. Nenhum fora o amor da sua vida. Nem o da adolescência. Gostou dos rapazes. Nada demais. Bons relacionamentos que não a entusiasmaram ao ponto de pensar em um futuro compartilhado. Depois de se tornar a presidente da empresa, as coisas pioraram. Os homens tinham medo de sua força e de sua posição. Ela achava uma bobagem, como acham todas as mulheres que exercem o poder e tem posições de destaque. Esquecem que os homens foram criados para serem os condutores de uma família e de um relacionamento, ainda hoje sim: o mundo é machista e as mulheres mais ainda, afinal são elas que educam os homens. Calma, mulheres que leem esta história! É só uma provocação...

Não que fosse uma prioridade em sua vida: o amor. Incomodava-a nunca ter experimentado o sentimento que todas as suas amigas e amigos já haviam descrito como uma força tão poderosa que não se consegue pensar ou respirar sem vir à mente a imagem do ser amado. Atualmente namorava um rapaz rico, bonito, trabalhador e louco por ela. Jorge era compreensivo, sabia que ela era uma mulher poderosa e ele estaria sempre em segundo plano. Ela, porém, era fascinante, pois além dessas qualidades todas, era uma pessoa simples, que gostava de coisas simples. Só não conseguia amar. Não conseguia encontrar esse sentimento dentro dela.

Pior ainda quando descobriu algo que nunca imaginou: seu pai era um grande mulherengo, com amantes e histórias de arrepiar uma filha tão crente no amor e fidelidade de seus pais. Sempre havia pensado que os dois possuíam um casamento perfeito. Seu pai era um homem muito bonito e sua mãe também era uma mulher linda. Os dois se amavam e se relacionavam com muito carinho na frente das outras pessoas, mesmo depois de muito tempo de casados. Presenciara poucas brigas na vida dos dois, e nenhuma por esse motivo, ou seja, mulheres ou ciúmes. Pelo que ficara sabendo, depois da morte do pai, ele era quase um viciado em sexo. As modelos contratadas, funcionárias, e tantas outras, e sua mãe nem desconfiava, e nem desconfia, ela crê. Obviamente não comentou suas descobertas com a mãe. Seus primos, que sabiam de tudo, indagados com certa ferocidade, desconversaram e disseram que aquilo era normal para os homens mais velhos, de outra geração, com outro tipo de criação e que seu pai sabia separar as coisas muito bem, nunca sustentou amantes, eram apenas “casos sem importância”, “apenas sexo”. Comentaram que seu pai também dava suas escapadas de vez em quando e que não viam mal nisso, desde que não comprometesse os negócios. Seu pai era vasectomizado, coisa que só eles sabiam, pois nunca dissera nada à sua família. Isso talvez a tenha feito desacreditar do amor verdadeiro. Gostava de sexo, muito, inclusive, até se arriscara numa aventura inocente com uma amiga modelo em uma viagem. Gostou da experiência. Não a repetiu.

Esse dilema a consumia. Marcara casamento com o atual namorado, seu terceiro. Sentia-se compelida por ela mesma a constituir uma família baseada em algo que não sabia o que era e que, com sorte, viria com o tempo. Aproximava-se a data e ela se apavorava. Sua mãe estava radiante. Seus irmãos também. Seu irmão era casado com uma professora de psicologia da universidade americana e tinha dois filhos. Sua irmã também era casada com um médico cardiologista e tinham dois filhos. Os três se preocupavam com ela, porque a viam como uma workaholic incurável que deveria ter outras preocupações e motivações na vida, além de só trabalhar, ou muito nova para pensar apenas nas responsabilidades da empresa.

Ela gostava de trabalhar. Não possuía aquela avidez que as pessoas acreditavam que ela tinha pelo trabalho. Trabalhava muito. Fora dali nem se importava muito com o trabalho. Não ia aos eventos e ficava olhando para as roupas das pessoas. Evitava conversas sobre moda ou trabalho. Falava sobre cinema, música, teatro. Arte em geral, que era uma de suas paixões. Sempre encontrava espaço para exposições, peças e filmes. Continuava a ler muito e agora lia mais romances em vez de só jornais, como fazia antes. Arrependia-se de ter descoberto os livros tarde. Os que lera na escola por obrigação, afastaram-na um pouco do hábito. Releu alguns que havia odiado ou sido indiferente naquela época e agora os adorava.

Sua mãe cuidava dos preparativos do casamento, pois ela não tinha tempo. Faltando quatro meses e tendo protelado o quanto podia ver modelos de vestidos, foi intimada a fazê-lo pela mãe. Era a única coisa em sua vida que a angustiava e pela primeira vez não conseguia trabalhar direito.


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